terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A criatura

 Quero ver Jonathan,

Aqui ou onde mora

Exilado de mim.

Está meio chuvoso e é domingo,

feito um domingo antigo,

quando Ormírio chegou com Antônia,

sua filha de criação,

e me deu um cacho de uvas.

Da mesma natureza é a saudade que sinto

por aquele domingo e por Jonathan.

Como Antônia era tola eu era feliz,

o eixo da terra girava devagar,

eu cantava

a propósito de tudo,

a música de que mais gostava.

Quando me apaixonei por Jonathan,

escrevia seu nome pela casa,

meu pai dizia: ‘o que é isso?’

é o nome de um príncipe, eu falava,

Pronuncia-se Narratanói e está nas

mil e uma noites…

Meu pai, plebeu

a quem certas palavras subjugavam,

orgulhava-se de mim

que lhe dava poder sobre os signos migrados.

Oh, Jonathan, descubro que te amo

desde o tempo da guerra,

quando os aliados batiam os alemães.

Vovô dizia usaliados

e até mamãe, imagine!

E principalmente eu:

‘usaliados’ vão ganhar a guerra’,

sabendo por divina inspiração:

‘o poder é de quem detém a palavra’.

Poder que ia usar contra você,

que teria minha mãe usado contra mim:

‘você é da classe operária,

ele é muito bonito,

vai te deixar sozinha!’

Não deixou minha mãe, como não me deixa

apesar dos pesares,

esta vocação para a alegria perfeita.

Vê, são passadas décadas

e é a mesma em mim

a prontidão para a chuva,

as goiabas verdes,

para o sol que ateia nos telhados

as labaredas brancas do meio-dia.

É como se estivésseis aqui

com meu pai, meu avô

Ormírio e o cacho de uvas,

como quando entoei impropriamente,

à véspera de um Natal o Tantum Ergo.

Que grande cortesã eu me ensaiava,

porque era uma orgia

aquela felicidade sobre nadas,

era tudo tão pobre.

Eu já amava Jonathan,

porque Jonathan é isto,

fato poético desde sempre gerado,

matéria de sonho, sonho,

hora em que tudo mais desce à desimportância.

Agora que me descido à mística,

escrevo sob seu retrato:

‘Jesus, José, Javé, Jonathan, Jonathan,

a flor mais diminuta é meu juiz.

Me deixem no deserto resgatada,

pedra que dentro é pedra,

sobre pedra pousada’.

Rimo por boniteza,

não é triste o que sinto.

‘A supliciada’ podíeis chamar a tais versos,

no entanto, confirmo, estou feliz,

feliz para o desperdício

do que busquei amealhar

e estava certa,

o que o tempo não rói.

Um mel derrama-se,

uma ave amorosa me alimenta.

Negro céu com relâmpagos

e esta doçura que não tem repouso.

São feitos para mim estes legumes,

mais que as flores são feitos para mim

que os converto no ventre em ouro simbólico.

Nada há mais parecido com o que sou

a não ser outro homem e outro mais

e mais outro homem.

A visão de um recém-nascido me transporta.

Experimento dizer: ‘dentro da terra

sobre os leitos de areia os lençóis d’água’;

é como ferir o peito com uma lança

estremeço de amor pelas torrentes,

como de amor por Jonathan.

Os peixes gostam de mim, os fetos.

Antes que o façam eu abraço os homens,

eu os desarmo,

como a abelha em seu afinco

trabalho para que entendam:

a vida é tão bonita,

basta um beijo

e a delicada engrenagem movimenta-se,

uma necessidade cósmica nos protege.

Os espíritos imundos confessavam o Cristo,

se enfiavam nos porcos confessando,

essa alegria nova me confessa,

a mesma, a antiga,

a de quando ganhei as uvas e chovia

e gostava de Antônia

aquela menina tola.

‘A ira bordeja como um peixe mau’

É só um verso bonito.

Não há como voltar deste país:

o homem à  janela canta

– sem ter costume – a melodiazinha.

Deus põe no céu o arco-íris,

uma palavra selada,

seu hieróglifo.

Não tenho mais tempo algum,

ser feliz me consome.


Adélia Prado,
em O Pelicano