Não me sinto seguro
Em parte alguma.
A aventura não termina.
Teus olhos brilham em todos os lugares
Não me sinto seguro
Nas palavras
No dinheiro
Nos espelhos.
A aventura nunca termina
e os teus olhos me procuram.
Roberto Bolaño,
em A universidade desconhecida
Tradução de Laura Erber
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quinta-feira, 5 de abril de 2018
Agora o teu corpo é sacudido por
pesadelos. Você já não é
o mesmo: que amou,
que se arriscou.
Você já não é o mesmo, embora amanhã talvez
tudo se desvaneça
como um sonho ruim e você comece
de novo. Talvez
amanhã comece de novo.
E o suor, e o frio,
os detetives erráticos,
sejam como um sonho.
Não desanime.
Agora você treme,
mas talvez
amanhã comece de novo.
Roberto Bolaño,
em A universidade desconhecida
Tradução de Laura Erber
pesadelos. Você já não é
o mesmo: que amou,
que se arriscou.
Você já não é o mesmo, embora amanhã talvez
tudo se desvaneça
como um sonho ruim e você comece
de novo. Talvez
amanhã comece de novo.
E o suor, e o frio,
os detetives erráticos,
sejam como um sonho.
Não desanime.
Agora você treme,
mas talvez
amanhã comece de novo.
Roberto Bolaño,
em A universidade desconhecida
Tradução de Laura Erber
A Francesa
Uma
mulher inteligente
Uma
mulher formosa
Conhecia
todas as variantes, todas as possibilidades
Leitora
dos aforismos de Duchamp e dos relatos de Defoe
Em
geral com um autocontrole invejável
Salvo
quando ficava deprimida e enchia a cara
Algo
que podia durar dois ou três dias
Uma
sucessão de bordéis e valiums
Que
fariam de você um frangote
Então
costumava contar histórias que lhe aconteceram
Entre
os 15 e os 18
Um
filme de sexo e terror
Corpos
despidos e negócios no limite da lei
Uma
atriz vocacional e ao mesmo tempo uma menina com
estranhos traços de avareza
Conheci
ela quando acabara de completar 25
Numa
época tranqüila
Acho
que tinha medo da velhice e da morte
A
velhice para ela era os trinta anos
A
Guerra dos Trinta Anos
Os
trinta anos de Cristo quando começou a pregar
Uma
idade como qualquer outra, disse-lhe enquanto jantávamos
à
luz de velas
Contemplando
o correr do rio mais literário do planeta
Mas
para nós o prestígio estava em outra parte
Para
os lados possuídos pela lentidão, nos gestos
deliciosamente lentos do desequilíbrio
nervoso
Nas
camas escuras
Na
multiplicidade geométrica das vitrines vazias
Na
cova da realidade
Nosso
luxo
Nosso
absoluto
Nosso
Voltaire
Nossa
filosofia de cama e banho
Como
dizia, uma moça inteligente
Com
essa rara virtude vidente
(Rara
para nós latino-americanos)
Que
é tão comum em sua pátria
Onde
até os assassinos tem uma caderneta de poupança
e ela não deixaria por menos
Uma
caderneta de poupança e uma foto de Tristán Cabral,
A
nostalgia do não vivido
Enquanto
aquele prestigioso rio arrastava o sol moribundo
E
sobre suas bochechas corriam lágrimas aparentemente gratuitas
Não
quero morrer sussurrava enquanto gozava
Na
perspicaz escuridão do quarto
E
eu não sabia o que dizer
Na
verdade não sabia o que dizer
A
não ser acariciá-la e segurá-la enquanto se movia
Pra
cima e pra baixo com a vida
Pra
cima e pra baixo como as poetas da França
Inocentes
e castigadas
Até
que voltava ao planeta Terra
E
de seus lábios brotavam
Paisagens
da adolescência que de improviso enchiam nosso
quarto
Com
duplicatas que choravam nas escadas rolantes do metrô
Com
duplicatas que faziam amor com dois tipos por vez
enquanto lá fora a chuva caia
Sobre
os sacos de lixo e sobre as pistolas abandonadas
nos sacos de lixo
A
chuva que tudo lava
Menos
a memória e a razão
Vestidos,
jaquetas de couro, botas italianas, lingerie para
enlouquecê-lo
Para
enlouquecê-la
Apareciam
e desapareciam em nosso quarto fosforescente e
pulsátil
E
rastros rápidos de outras aventuras menos íntimas
Fulguravam
em seus olhos feridos como vaga-lumes
Um
amor que não ia durar muito
Mas
que até a sobremesa seria inesquecível
Disse
isso
Debruçada
na janela
Seu
rosto suspenso no tempo
Seus
lábios: os lábios de uma estátua
Um
amor inesquecível
Sob
a chuva
Sob
esse céu eriçado de antenas onde conviviam
Os
artesonados do Século XVII
Com
as cagadas de pombo do Século XX
E
no meio
Toda
a inextinguível capacidade de provocar dor
Invicta
através dos anos
Invicta
através dos amores
Inesquecíveis
Disse
isso, sim
Um
amor inesquecível
E
breve
Como
um furacão?
Não,
um amor breve como um suspiro de uma cabeça guilhotinada
A
cabeça de um rei ou de um conde bretão
Breve
como a beleza
A
beleza absoluta
A
que contém toda a grandeza e a miséria do mundo
E
que só é visível para aqueles que amam
A Francesa,
de Roberto Bolaño
Musa
Era
mais bela que o sol
e
eu ainda não tinha 16 anos.
24
se passaram
e
ela segue a meu lado.
Às
vezes a vejo caminhar
sobre
as montanhas: anjo da guarda
de
nossas preces.
É
o sonho que regressa
com
a promessa e o assovio.
O
assovio que nos chama
e
que nos perde.
Em
seus olhos vejo os rostos
de
todos meus amores perdidos.
Ah,
Musa, proteja-me, eu rogo,
nos
dias terríveis
da
aventura incessante.
Nunca
me deixe.
Guia
meus passos e os passos
de
meu filho Lautaro.
Deixe-me
sentir a ponta de seus dedos
novamente
em minhas costas,
incentivando-me
quando tudo estiver escuro,
quando
tudo estiver perdido.
Deixa-me
ouvir o assovio novamente.
Sou
seu fiel amante
ainda
que às vezes o sonho
me
separe de você.
Você
é, também, a rainha dos sonhos.
Minha
amizade é sua todos os dias
e
algum dia
sua
amizade me salvará
do
terreno baldio do esquecimento.
Pois,
mesmo que você venha
enquanto
eu vou
no
âmago somos amigos
inseparáveis.
Musa,
onde quer
que
eu vá
você
vai.
Vi
você nos hospitais
e
na fila
dos
presos políticos.
Vi
você nos olhos terríveis
de
Edna Lieberman
e
nos becos
dos
bandoleiros.
E
sempre me protegeu!
Na
derrota e na loucura.
Nos
relacionamentos doentios
e
na crueldade,
sempre
esteve comigo.
E
ainda que passem os anos
e
o Roberto Bolaño da Alameda
e
da Livraria de Cristal
se
transforme,
se
aquiete,
se
torne mais imbecil e mais velho
você
permanecerá bela como sempre.
Mais
que o sol
e
que as estrelas.
Musa,
onde quer
que
você for
eu
vou.
Sigo
seu rastro radiante
através
da noite imensa.
Sem
me importar com a idade
ou
com a doença.
Sem
me importar com a dor
ou
o esforço que hei de fazer
para
te seguir.
Porque
com você posso atravessar
a
cidade destruída
e
sempre encontrarei a porta
que
me devolva
à
Quimera,
porque
você está comigo,
Musa,
mais
bela que o sol
e
mais bela
que
as estrelas.
Roberto Bolaño
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