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sábado, 25 de junho de 2016

que venham os temporais
e as ondas erguendo as casas
misturando nuvens e mulheres
abrindo as pernas do deserto
jorrando manhãs e palavras
e silêncio por entre as palavras
que venham os bárbaros
e sua fome de vida sua fome
de fome de vida sua sede
de grandes ondas batendo
contra os joelhos do cais
venham os que não creem em ditadores
da terra e do céu porque o amor
e a loucura são siameses
e o tempo é uma máquina
de moer flores e pedras e
não temos tempo a perder
que venham as que tecem
as que destecem as que sabem
que não sabem e que é esse
seu grande luminoso
e humano poder
estaremos eu e tu
por debaixo das ondas
imóveis por dentro das ondas
e livres como o ar dentro
da jaula do tigre
estaremos em nossa ausência
e só então estaremos livres
do que seria a eternidade
Carlos Moreira

domingo, 17 de maio de 2015

o corpo atravessado pelo tempo
frida atravessada pelo bonde
a música repleta de silêncio
o dentro mais que fora: dentrolonge
o tigre que devora william blake
a jaula de onde rilke não escapa
o dedo de mefisto na palavra
o brilho de corisco entre os dentes
o grito refletido na moldura
as costas de miguel naquele andaime
o doce que se esconde na cicuta
o inferno que ilumina a voz de dante
o dente da serpente em plena fruta
e tudo agora nada neste instante

Carlos Moreira
via Facebook

terça-feira, 14 de abril de 2015

quem soa não sou eu: é a palavra:
pedra áspera ou faca amolada
é ela quem fala
eu e tu somos no máximo a corda
mais ou menos tensa de uma harpa
ou bandolim de lata
tanto faz: é ela quem sabe a hora
e a forma absurda de tirar a nota
e estuprar o anjo
ninguém é poeta: somos o sonho
da palavra (arquetípico demônio):
eis o humano
Carlos Moreira

Sobre a arte de ser um fantasma

os que vierem (se vierem
não saberemos: o que portanto
é irrelevante) depois de nós
os que nascerem em outro
mundo daqui a duzentos
bilhões de anos e anos-luz
não verão mais as estrelas:
a linha dágua do universo
terá expandido tanto
que as galáxias brilharão
para ninguém: distantes
e inúteis olhos sem espelhos
navegarão sem tramontana
não saberão que surfamos
a explosão na sua onda
que amamos destruímos
escrevemos calculamos
o início luminoso da viagem
:
meu filho de repente
olha o céu a mim sorri:
que sorte nascermos agora e aqui
e eu digo: Sim
Carlos Moreira
inexorável a gravidade
entre as tuas cartilagens
inexorável o silêncio
daquilo que não dirás
porque não há a quem
inexorável o medo
de uma noite enorme
em tua mão fechada
e a sombra que escorre
por baixo da porta
inexorável o sorriso no retrato
mesmo que falso e cotidiano
inexorável a tua morte anunciada
a tua morte antecipada
pelo viés do tédio
inexorável o tempo
que levaste descobrindo o mundo
e o mundo é isso mesmo
inexorável teu próprio medo
teu medo tétrico
de voltar pra casa
inexorável tua vida inteira
tua língua teu corpo
tua palavra
um pouco além de nós
gargalha e cala
algum demônio
Carlos Moreira
: muito cedo ou tarde agora
para a corda no pescoço
para a hora do disparo
para pôr a alma fora
para a festa que acabou
e nem era madrugada
para a bala além do corpo
para o morto na calçada
e sua sombra que se move
para sempre além da escada
: não meter a mão no medo
nem a faca na garganta
existir além do muro
mesmo sendo a pedra dentro
mesmo estando tão por fora
quanto a fome além da fera
quanto o tempo de outro tempo
: e por ser assim excêntrico
(só por ser assim excêntrico)
pôr a roda em movimento
*
Carlos Moreira

sexta-feira, 20 de março de 2015

Colagem III - O Quarto

Aqui meus crimes não seriam de amor.

Ana Cristina César

há naquela casa um quarto
e talvez ainda a cama
em que você morreu
trezentas vezes
raízes brotavam do teu corpo
e invadiam a tarde: nunca
o tempo foi tão fundo
na sombra de um vivente
o gozo o parto a morte
entre as mesmas margens:
dobras de um lençol em branco
que teu corpo descrevia
a tarde agora é outra: mora
outro tempo no teu tempo:
o que ficou de ti foi essa sombra
que fala entre outras mil paredes
Carlos Moreira

neste mesmo quarto
há muito tempo
você me ensinou
novamente a nudez
e então chamamos isso de amor
mas era exagero

Ana Martins Marques


domingo, 23 de novembro de 2014

há naquela casa um quarto
e talvez ainda a cama
em que você morreu
trezentas vezes
raízes brotavam do teu corpo
e invadiam a tarde: nunca
o tempo foi tão fundo
na sombra de um vivente
o gozo o parto a morte
entre as mesmas margens:
dobras de um lençol em branco
que teu corpo descrevia
a tarde agora é outra: mora
outro tempo no teu tempo:
o que ficou de ti foi essa sombra
que fala entre outras mil paredes
Carlos Moreira