Mesmo ao sonhar contigo,
só consigo que me ames noutro sonho
dentro do meu sonho primitivo...
João Guimarães Rosa
https://www.youtube.com/watch?v=WlatHB9jZ1g
Nação Zumbi
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sexta-feira, 20 de março de 2015
Colagem V - Sonho
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Colagem IV - Dentro
De dentro de mim não saio nem pra pescar.
Manoel de Barros
Ainda que se mova o trem,
tu não te moves de ti.
Hilda Hilst
"No fundo, poderíamos ser como na superfície", pensou Oliveira, "mas teríamos que viver de outra maneira. E o que quer dizer viver de outra maneira? Talvez viver absurdamente para acabar com o absurdo, sair de si mesmo com tal violência que o salto acabasse nos braços de outro. Sim, talvez o amor, mas o otherness dura para nós o que dura uma mulher, e além disso só no que toca a essa mulher. No fundo, não há otherness, apenas o agradável togetherness. É certo que isso já é alguma coisa..." Amor, cerimônia ontologizante, doadora de ser. E por isso lhe ocorria agora aquilo que na verdade lhe deveria ter ocorrido logo no início: sem se possuir a si mesmo, jamais poderia possuir a outridade. E, afinal, quem é que se possuía de verdade? Quem é que tinha a perfeita consciência de si mesmo, da solidão absoluta que significa nem sequer contar com a própria companhia, que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou no matrimônio para estar pelo menos só-entre-os-demais? Assim, paradoxalmente, o cúmulo da solidão conduzia ao cúmulo do gregarismo, à grande solidão das companhias alheias, ao homem só na sala de espelhos e dos ecos. Todavia, pessoas como ele e tantas outras, que se aceitavam a si mesmas (ou que se repeliam, mas conhecendo-se de perto), entravam sempre no pior paradoxo, estar talvez à beira da outridade e não poder alcançá-la. A verdadeira outridade feita de delicados contatos, de maravilhosos ajustes com o mundo, não podia ser cumprida por um só lado: a mão estendida deveria receber outra mão, vinda de fora, vinda do outro.
Julio Cortázar
https://www.youtube.com/watch?v=wihEPmqrIL4
Manoel de Barros
Ainda que se mova o trem,
tu não te moves de ti.
Hilda Hilst
"No fundo, poderíamos ser como na superfície", pensou Oliveira, "mas teríamos que viver de outra maneira. E o que quer dizer viver de outra maneira? Talvez viver absurdamente para acabar com o absurdo, sair de si mesmo com tal violência que o salto acabasse nos braços de outro. Sim, talvez o amor, mas o otherness dura para nós o que dura uma mulher, e além disso só no que toca a essa mulher. No fundo, não há otherness, apenas o agradável togetherness. É certo que isso já é alguma coisa..." Amor, cerimônia ontologizante, doadora de ser. E por isso lhe ocorria agora aquilo que na verdade lhe deveria ter ocorrido logo no início: sem se possuir a si mesmo, jamais poderia possuir a outridade. E, afinal, quem é que se possuía de verdade? Quem é que tinha a perfeita consciência de si mesmo, da solidão absoluta que significa nem sequer contar com a própria companhia, que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou no matrimônio para estar pelo menos só-entre-os-demais? Assim, paradoxalmente, o cúmulo da solidão conduzia ao cúmulo do gregarismo, à grande solidão das companhias alheias, ao homem só na sala de espelhos e dos ecos. Todavia, pessoas como ele e tantas outras, que se aceitavam a si mesmas (ou que se repeliam, mas conhecendo-se de perto), entravam sempre no pior paradoxo, estar talvez à beira da outridade e não poder alcançá-la. A verdadeira outridade feita de delicados contatos, de maravilhosos ajustes com o mundo, não podia ser cumprida por um só lado: a mão estendida deveria receber outra mão, vinda de fora, vinda do outro.
Julio Cortázar
https://www.youtube.com/watch?v=wihEPmqrIL4
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Colagem III - O Quarto
Aqui meus crimes não seriam de amor.
Ana Cristina César
há naquela casa um quarto
e talvez ainda a cama
em que você morreu
trezentas vezes
em que você morreu
trezentas vezes
raízes brotavam do teu corpo
e invadiam a tarde: nunca
o tempo foi tão fundo
na sombra de um vivente
e invadiam a tarde: nunca
o tempo foi tão fundo
na sombra de um vivente
o gozo o parto a morte
entre as mesmas margens:
dobras de um lençol em branco
que teu corpo descrevia
entre as mesmas margens:
dobras de um lençol em branco
que teu corpo descrevia
a tarde agora é outra: mora
outro tempo no teu tempo:
o que ficou de ti foi essa sombra
que fala entre outras mil paredes
outro tempo no teu tempo:
o que ficou de ti foi essa sombra
que fala entre outras mil paredes
Carlos Moreira
neste mesmo quarto
há muito tempo
você me ensinou
novamente a nudez
e então chamamos isso de amor
mas era exagero
Ana Martins Marques
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segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Colagem I - Crime de amor
Aqui meus crimes não seriam de amor.
Ana Cristina César
:
https://www.youtube.com/watch?v=dfRV9gqNTtc
Eu vou tirar você desse lugar, Odair José.
Ana Cristina César
:
https://www.youtube.com/watch?v=dfRV9gqNTtc
Eu vou tirar você desse lugar, Odair José.
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