neste rosto em que envelheço
o riso da infância arde e canta.
eis o poema e seu arremesso
mar bramindo nas grades da garganta.
tal o velho a enforcar a criança
o breu põe a ferros a manhã.
verso a verso a poesia não avança
açúcar gago na treva da maçã.
neste corpo em que envelheço
poesia murcha na prosa do verso.
eterno repetir-se nesse espesso
mar de luz, reverso perverso.
Afonso Henriques Neto
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domingo, 11 de janeiro de 2015
discurso
nada existe, celebremos
a alegria.
o nascer e o morrer
não nos acontece.
só para os outros
somos espetáculo.
há vento em excesso
pelos buracos da linguagem.
um jardim muito espesso
labirinto de ideias
flocos de imagens sobre natais de fumaça.
nada existe, celebremos
aventura.
tudo se instala
o sentido esvaziou-se do oceano
praias da totalidade.
o que não existe
celebra a concretude.
é grave a pedra
a pele desgarrada
o esqueleto do silêncio.
lábios se tocam em alegria
beijo seco
jardim de séculos.
quase nenhuma fala
ninguém
mas os caminhos
recordemos:
infância veloz
olfato de espantos
estátua ardente arfando
no sonho.
apenas não há
ninguém
mas os espaços
(apenas o já nascido
previamente ido).
infinito buraco sem tempo
celebração.
Afonso Henriques Neto
no livro Abismo com Violinos
a alegria.
o nascer e o morrer
não nos acontece.
só para os outros
somos espetáculo.
há vento em excesso
pelos buracos da linguagem.
um jardim muito espesso
labirinto de ideias
flocos de imagens sobre natais de fumaça.
nada existe, celebremos
aventura.
tudo se instala
o sentido esvaziou-se do oceano
praias da totalidade.
o que não existe
celebra a concretude.
é grave a pedra
a pele desgarrada
o esqueleto do silêncio.
lábios se tocam em alegria
beijo seco
jardim de séculos.
quase nenhuma fala
ninguém
mas os caminhos
recordemos:
infância veloz
olfato de espantos
estátua ardente arfando
no sonho.
apenas não há
ninguém
mas os espaços
(apenas o já nascido
previamente ido).
infinito buraco sem tempo
celebração.
Afonso Henriques Neto
no livro Abismo com Violinos
ainda uma vez
não há primavera. melhor: essas flores
são quase aviões (cinema, guerra mundial).
ovos de cimento sangrando sobre memórias.
não há sinais sólidos na paisagem.
antes: nuvem lacrada espessa
ao redor da sordidez, carnificina.
discurso tão antigo, todos os cenários
são antiquíssimas linguagens nas ossadas
de luz das galáxias. nenhum sentido.
vejam bem: não há caminhos, reflexos,
a dose diária de absurdo já se consumiu,
estamos tão nus que não somos nós.
não há morte. sim: o que morreu
foram eixos fixos, auroras sob medida,
primaveras cheirando a flor e bosta de cavalo.
ainda uma vez nowhere, nadie ensaia
o vôo. línguas pingam. ponto. vírgula,
o queimar-se do fogo ultrapassou o fim.
Afonso Henriques Neto
no livro Abismo com Violinos
são quase aviões (cinema, guerra mundial).
ovos de cimento sangrando sobre memórias.
não há sinais sólidos na paisagem.
antes: nuvem lacrada espessa
ao redor da sordidez, carnificina.
discurso tão antigo, todos os cenários
são antiquíssimas linguagens nas ossadas
de luz das galáxias. nenhum sentido.
vejam bem: não há caminhos, reflexos,
a dose diária de absurdo já se consumiu,
estamos tão nus que não somos nós.
não há morte. sim: o que morreu
foram eixos fixos, auroras sob medida,
primaveras cheirando a flor e bosta de cavalo.
ainda uma vez nowhere, nadie ensaia
o vôo. línguas pingam. ponto. vírgula,
o queimar-se do fogo ultrapassou o fim.
Afonso Henriques Neto
no livro Abismo com Violinos
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
na estrada desta cama
princesa
que fogueira é essa acesa
na noite tão fumada do seu quarto
se lá fora uiva o vento
e outros bichos bem mais gelados
apodrecem por todos os séculos
como aquela paixão desenfreada
que se foi gargalhando lágrimas
pelo galo gorgolejante dos dias
ou que não era paixão
nem mesmo um estrelado tesão
conforme você me dizia
naquela caminhada sem caminho
mas um amor denso
lava represada de milênios
e leve como a nuvem
que vestia vossas mutantes sintonias
sim meu amigo
eu amava um fulgurante desespero
era bem mais que o absoluto
a gente não se encontra
em parte alguma
e o amor
esta lua suavizante nas ossadas
você me entende
essas transas que jamais entenderíamos
princesa
vou lhe dizer uma coisa
que ideia alguma
que música alguma
encerraria em seus espelhos de encantamento
vou lhe dizer
que vocês deveriam se sentar agora
às margens dessa utopia
e se beijarem e se lamberem
e se comerem ainda
veja quantos peixes se evaporando
árvores inclinadas para o invisível
nem quando nem nunca
princesa
tanta ternura enjaulada
você tão fumada tão descabelada
pássaro aflito na memória
secas florestas fosforescentes
certo meu amigo
mas tire a mão da minha bunda
Afonso Henriques Neto
em Tudo Nenhum
que fogueira é essa acesa
na noite tão fumada do seu quarto
se lá fora uiva o vento
e outros bichos bem mais gelados
apodrecem por todos os séculos
como aquela paixão desenfreada
que se foi gargalhando lágrimas
pelo galo gorgolejante dos dias
ou que não era paixão
nem mesmo um estrelado tesão
conforme você me dizia
naquela caminhada sem caminho
mas um amor denso
lava represada de milênios
e leve como a nuvem
que vestia vossas mutantes sintonias
sim meu amigo
eu amava um fulgurante desespero
era bem mais que o absoluto
a gente não se encontra
em parte alguma
e o amor
esta lua suavizante nas ossadas
você me entende
essas transas que jamais entenderíamos
princesa
vou lhe dizer uma coisa
que ideia alguma
que música alguma
encerraria em seus espelhos de encantamento
vou lhe dizer
que vocês deveriam se sentar agora
às margens dessa utopia
e se beijarem e se lamberem
e se comerem ainda
veja quantos peixes se evaporando
árvores inclinadas para o invisível
nem quando nem nunca
princesa
tanta ternura enjaulada
você tão fumada tão descabelada
pássaro aflito na memória
secas florestas fosforescentes
certo meu amigo
mas tire a mão da minha bunda
Afonso Henriques Neto
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