domingo, 11 de janeiro de 2015

ainda uma vez

não há primavera. melhor: essas flores
são quase aviões (cinema, guerra mundial).
ovos de cimento sangrando sobre memórias.

não há sinais sólidos na paisagem.
antes: nuvem lacrada espessa
ao redor da sordidez, carnificina.

discurso tão antigo, todos os cenários
são antiquíssimas linguagens nas ossadas
de luz das galáxias. nenhum sentido.

vejam bem: não há caminhos, reflexos,
a dose diária de absurdo já se consumiu,
estamos tão nus que não somos nós.

não há morte. sim: o que morreu
foram eixos fixos, auroras sob medida,
primaveras cheirando a flor e bosta de cavalo.

ainda uma vez nowhere, nadie ensaia
o vôo. línguas pingam. ponto. vírgula,
o queimar-se do fogo ultrapassou o fim.

Afonso Henriques Neto
no livro Abismo com Violinos

Nenhum comentário:

Postar um comentário