sábado, 28 de junho de 2014

Ode al día feliz

ESTA vez dejadme
ser feliz,
nada ha pasado a nadie,
no estoy en parte alguna,
sucede solamente
que soy feliz
por los cuatro costados
del corazón, andando,
durmiendo o escribiendo.
Qué voy a hacerle, soy
feliz.
Soy más innumerable
que el pasto
en las praderas,
siento la piel como un árbol rugoso
y el agua abajo,
los pájaros arriba,
el mar como un anillo
en mi cintura,
hecha de pan y piedra la tierra
el aire canta como una guitarra.
Tú a mi lado en la arena
eres arena,
tú cantas y eres canto,
el mundo
es hoy mi alma,
canto y arena,
el mundo
es hoy tu boca,
dejadme
en tu boca y en la arena
ser feliz,
ser feliz porque si, porque respiro
y porque tú respiras,
ser feliz porque toco
tu rodilla
y es como si tocara
la piel azul del cielo
y su frescura.
Hoy dejadme
a mí solo
ser feliz,
con todos o sin todos,
ser feliz
con el pasto
y la arena,
ser feliz
con el aire y la tierra,
ser feliz,
contigo, con tu boca,
ser feliz.

Pablo Neruda

sexta-feira, 27 de junho de 2014

ocupação

o ato de escrever
ocupa metade da minha prosa e metade da minha vida.
mando um bilhete pra ele: vê se desocupa a
outra metade.

preocupação

bilhete não respondido: que ameaças
são essas?

desocupação

preciso sair da outra metade para ceder
lugar ao iminente ato de foder.

Ana Cristina César
em antigos e soltos

quinta-feira, 26 de junho de 2014

UMA COCA-COLA COM VOCÊ

UMA COCA-COLA COM VOCÊ

é ainda melhor que uma viagem a Guadalajara, Paraty, Barcelona, São Luís
ou que ficar completamente chapado com a beleza do Stonehenge
em parte porque neste vestido florido você lembra uma Jeanne Hebuterne melhor & mais feliz
em parte porque eu te amo muito, em parte porque você gosta tanto de cerveja forte
em parte por causa dos plátanos siderais que, entre a rua central & a universidade, dançam como loucos, como se pudessem ver-se refletidos em seus olhos
em parte pelo segredo que nos semeia um sorriso quando pertos de pessoas & estátuas
é difícil acreditar, quando estou com você, que existam coisas tão paradas
tão solenes desagradáveis & definitivas quanto estátuas quando bem em frente
no sol a pino de São Paulo ao meio-dia, periferia afora, nós caminhamos pra lá & pra cá
como uma árvore que respira pelas suas castanhas

& a exposição de retratos parece não possuir rosto algum, só tinta
& você acha um barato o fato de que alguém tenha se dado ao trabalho de pintá-los
olho
para você & prefiro seu rosto a todos os retratos do mundo
à exceção, talvez, do Objeto de Hoag que de qualquer modo está no Museu do Constelário Noturno
aonde, ainda bem, vamos todos os dias & espero que possamos ir juntos pelo resto de nossas vidas
& isso de você se mover tão lindamente lê tão bem o anarquismo
assim com em nossa casa quase nunca penso no Nu à contre-jour ou
num ensaio nalgum desenho de Frank Frazetta ou Michelangelo que antes me alumbrava
& o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa
quando eles jamais encontraram a pessoa certa para, avarandado à sombra de uma árvore, enamorar-se de mais um belo suicídio do sol
ou por sinal John Romita Jr. que não riscou a armadura tão bem quanto
o coração dentro da armadura

acho que todos eles perderam uma experiência maravilhosa
& eu não vou desperdiçar
é por isso que estou aqui, contando tudo isso pra você

FRANK O'HARA

Tradução Fabiano Calixto

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Ao som de Suzanne Veiga

Meu nome é Caio F. Moro no segundo andar, mas nunca encontrei você nas escadas.

Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia — eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy metal só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas.
 Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como — eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a mão.
 No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto — preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho nem castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio — tão cansado, tão causado — qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi de boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios — que importa?
 (Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio — virá, virá? — e mito não, já não preciso.)
Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukowskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como: eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinha medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espírito no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-se-dentro-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço.
 Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza de que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes de estas palavras todas caírem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.

Caio Fernando Abreu
n'O Estado de São Paulo, 11/11/1987
retirada do livro A vida gritando nos cantos

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

Vinicius de Moraes