quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

claro, ela nunca disse que estaria
ou que permaneceria depois
do dobrar das horas. não
minha senhora, no pouco tempo que ficou
constantemente me lembrou de que iria
não estar
ao fim de tudo. o absurdo que me soa
é que, ainda assim, permanecia
como quem não notasse ser
como quem não soubesse estar
presente inteira, mas sobretudo
como se não pudesse ver
que a vida era aquele segundo.


Leandro Durazzo
via Facebook

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

"today my professor told me
every cell in our entire body
is destroyed and replaced
every seven years.
how comforting it is to know
one day i will have a body
you will have never touched." 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

"o amor é paciente
o amor é gentil
suporta qualquer coisa
e tudo sabe
o amor nunca acaba
profecia - desapareceu
se as linguagens - mudas
sabedoria - nada
profecia - desapareceu
linguagens - mudas
e apenas fica
fé, esperança e amor
mas o maior desses três
é o amor"

a liberdade é azul
kieslowski

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Trecho de Manchas na pele, linguagem

Como todos os processos excessivamente contínuos, é preciso que nos lembremos do envelhecimento de um ponto de vista absolutamente exterior (em frases como "Não tenho idade para", "Naquela época" ou "Quando eu era menino") ou, ao contrário, de um interior imediato, muitas vezes corpóreo - na completa falta de ar após uma corrida, no rompimento estúpido de algum músculo. Mas é então, sob a sentença de um envelhecimento inevitável, que alguma coisa em mim parece querer, e poder, sobrevoar meu corpo, livrar-se dele - um misto de olhar para longe e respiração, um amálgama aflito de palavras, a melodia como porta ou túnel, o instante que cava minha pegada numa paisagem imensa. Mas esta alegria progressiva precisa de alimento constante e o próprio corpo, em sua casca, parece não resistir bem a ela, tornando-se inquieto, ofegante e, aos poucos, cansado e deprimido. Como um balão cujo gás vai escapando, a energia insana de nossa alegria física procura abrigo - nas imagens, nos braços de outra pessoa e, no limite, pois é a isto que sempre recorre, na linguagem. É ali que a tentamos prender, antes que o gás escape de uma vez e sejamos tão-somente os espectadores de nossa própria decrepitude, de nossa fusão indeterminada na matéria.

Chegamos então à beira do velho precipício - o entusiasmo das palavras vagas. É a este antigo último recurso que recorremos sempre - exclamações ou frases compulsivas que não conseguimos deixar de dizer. Talvez seja melhor tratar agora dessa estranha ferramenta, a linguagem, que me põe para fora do corpo - tentar apreendê-la, indeciso entre o mugido daquilo que vai sob a camisa e a fatuidade grandiosa de minhas frases. Sem conseguir escolher se a vida é benção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, órgãos entranhados na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem?

Como uma via intermediária, procuro entrar e permanecer no reino da pergunta - ou de uma explicação que não explica nunca. Assim, suspenso, murmuro um nome confuso a cada ser que chama minha atenção e toco com meu dedo a sua frágil solidez, fingindo que são homogêneos e contínuos. Posso, até mesmo, anotar em meu caderno características do que toco, como: "pinta-se de verde antes de reproduzir", "mostra extrema ansiedade antes do ocaso", ou "destila o breu dos carvalhos ao redor", mas não devo, em hipótese alguma, regredir à cadeia causal interminável, como um cachorro mordendo a cauda. Acabo por me conformar com uma vaga e humilde dispersão dos seres, fechados em seu desinteresse e incomunicabilidade de fundo, e como um modelo mal-ajustado ao modelo permaneço em meu torpor indagativo, deitado na relva, tentando unir pedaços de frases a pedaços de coisas vivas.

Nuno Ramos
no livro Ó

sábado, 1 de agosto de 2015

Conheça Miss Metrô

Conheça Miss Metrô
1957
Veja Miss Metrô
1957
rodando no trem da Times Square
pra lá e pra cá
às quatro da manhã

Conheça Miss Metrô
1957
Ela usa buchas de algodão do tamanho de moedas
socadas no nariz moreno achatado
transitando pra lá e pra cá
no trem da Times Square
às quatro da manhã
e circulando
entre os anéis de ferro do paraíso
com braços dourados retalhados
charuto negro em mão morena

Você pode encontrar Miss Metrô
Você pode ver Miss Metrô
1957
trajando trajes tristes
transando trastes transidos
circulando em transe pelo trânsito
com braços morenos fatigados
bituca negra em mão morena

E os carros de ferro
indo e vindo eternamente
rumo à morte e à escuridão
oh Ubangi perdido

Cambaleando entre
as "ogivas sucessivas" do Inferno
em direção à definitiva
escada de incêndio de Danta

Lawrence Ferlinghetti,
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça

Rua Longa

A rua longa
que é a rua do mundo
passa em torno do mundo
cheia de todas as pessoas do mundo
pra não dizer todas as vozes
de todas as pessoas
que já existiram
Quem ama e quem chora
dorminhocos e virgens
homens de venda de spaghetti e homens-sanduíche
oradores e leitores
desossados banqueiros
donas-de-casa criteriosas
cobertas de esnobices de náilon
desertos de publicitários
manadas de secundaristas fogosas
multidões de colegiais
falando pelos cotovelos do mundo
e andando por aí sem parar
se pendurando na primeira janela
para ver o que passa
no mundo lá fora
onde tudo acontece
mais cedo ou mais tarde
se de fato acontece mesmo
E a rua longa
que é a rua mais longa
de todo o mundo
mas não é tão longa
como parece
passa por
todas as cidades e todas as cenas
cada alameda abaixo
cada boulevard para cima
cruza cada cruzamento
com sinais vermelhos e sinais verdes
passa por cidades ao sol
continentes na chuva
Hong Kongs famintas
incultiváveis Tuscaloosas
Oaklands da alma
Dublins da imaginação
E a rua longa
rola na sua ronda
como um enorme trem que chia
ofegando em volta do mundo
com a bagunça dos passageiros
os bebês e as cestas de piquenique
os cachorros e os gatos
e todos se perguntando
quem é que está
na cabine da frente
guiando o trem
se é que lá
tem mesmo alguém
o trem que corre ao redor do mundo
como um mundo que vai ficando redondo
todos ali se perguntando
que será que há
se há qualquer coisa
enquanto alguns se pendurando
espicham o olhar para a frente
tentando dar uma manjada
no maquinista na cabine
que só tem um olho
tentando ver o maquinista
divisar sua face
encontrar seu olho
quando eles passam numa curva
e jamais conseguem
embora de vez em quando pareça
que eles até já estão
para conseguir
E assim a rua vai rolando
vai o trem rebolando
estendendo nas janelas
suas lá dele as demais janelas de todos
os edifícios de
todas as ruas do mundo
deslizando também
na luz do mundo
na noite do mundo
com sinais nas travessias
fachos que estão perdidos mas focam
multidões em carnavais
circos na boca da noite
puteiros e parlamentos
fontes que o pensamento abandona
portas de porão e portas não achadas
figuras indecisas na lâmpada
ídolos que dançam pálidos
na ida continuada do mundo
Mas chegamos agora
à parte mais vazia da rua
à parte da rua
que passa em volta
da parte mais vazia do mundo
E não é aqui
que você vai
mudar de trem
Não é neste lugar
que você faz
alguma coisa
Esta é aquela parte do mundo
onde nada está fazendo
onde ninguém está fazendo
nada
onde em nenhum lugar há
alguém que não seja
apenas você
nem mesmo um espelho
que te faça em dois
nem uma alma
a não ser a sua
talvez
e mesmo assim
não aí
talvez
ou então não sua
talvez
porque você está como se diz
morto
você chegou à sua estação

Queira descer

Lawrence Ferlinghetti, 
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça

Cristo Abandonou

Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
não há árvores de Natal desenraizadas
e com penduricalhos pendurados pelos galhos

Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
não há árvores de Natal luminescentes
ou árvores de Natal de estanho folheado
ou árvores de Natal de estranhos floreados
ou árvores de Natal rosa plástico
ou árvores de Natal douradas
ou árvores de Natal negras
ou árvores de Natal azul esmalte
com velas elétricas
e trenzinhos elétricos rodando em volta
e parentes elegantes se empanturrando
de sarrabulho.

Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
não há intrépidos vendedores de Bíblias
cobrindo a nação
em cadillacs obesos
nem presépios das lojas Sears
completos com bebê de plástico na manjedoura e tudo
enviados pelo correio
e bebê vem pela entrega rápida
nem Sábios televisivos
entoando cânticos de louvor ao uísque Lord Calvert

Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
nenhum gordo estranho apertando as mãos
metido numa roupa vermelha de flanela
com uma barba branca falsa
fica circulando
como se fosse uma espécie de santo do Pólo Norte
cruzando o deserto até Belém
na Pennsylvania
num trenó
puxado por renas tilintantes de Adirondack
com nomes alemães
transportando sacos cheios de presentes
da Saks da Quinta Avenida
para que todos celebrem Cristo criança

Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
Bing Crosby nenhum recita
canções de Feliz Natal
nem anjos da Radio City
patinam desasados
por um gélido País das Maravilhas
em direção ao Paraíso do jinglebell
diariamente às 8:30
com matinês da Missa do Galo

Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e furtivamente fugiu rumo
ao útero anônimo de Maria outra vez
onde na escuridão da noite
das almas anônimas de nós todos
Ele aguarda novamente
uma inimaginável
e impossível
Reconcepção Imaculada
na mais doida de todas
as Segundas Vindas

Lawrence Ferlinghett,
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça

Cachorro

O cachorro vai livre pela rua
e vê a realidade
e as coisas que ele vê
são maiores que ele
e as coisas que ele vê
são a realidade dele
Bêbados caindo nas portas
Luas subindo em árvores
O cachorro vai livre pela rua
e as coisas que ele vê
são menos que ele
buracos de formiga
peixe em folha de Jornal
vitrines do Chinatown com galinhas
de cabeças pousadas um quarteirão à frente
O cachorro vai livre pela rua
e as coisas que ele cheira
cheiram um pouco como ele
O cachorro vai livre pela rua
passa por poças e bebês
charutos e gatos
lojas de apostas e policiais
Ele não tem raiva
dos policiais, apenas não lhes dá importâneia
passa por eles
e os bois inteiros pendurados mortos
em frente do Mercado da Carne de San Francisco
Preferia comer uma vitela macia
a ter de engolir um tira duro
mas bem que qualquer um serviria
E ele avança pela Fábrica de Ravioli Romeo
passa pela Torre de Coit
e a estátua de Doyle
Ele tem medo da Torre de Coit
mas não tem medo do Congressista Doyle
embora o que ouve seja desanimador
muito deprimente
e muito absurdo
para um jovem cachorro triste
como ele um cachorro sério
Ele que tem seu mundo livre
onde ficar comendo as próprias
pulgas não será dominado
O Congressista Doyle se resume
para ele a mais
um hidrante na rua
O cachorro vai livre pela rua
tem sua vida de cão para viver
pensar acerca
refletir sobre
tocando testando provando tudo
investigando tudo
sem um lucro por quebra de palavra
um real realista
com um conto real para contar
e um rabo real com o qual fazê-lo
uma vida real
                      latindo
                                 cachorro democrático
envolvido na real
                            livre iniciativa
com alguma coisa a dizer
                                      sobre ontologia
alguma coisa a dizer
                                  sobre a realidade
                                                             e como ouvir
                                                                                  e ver
cabeça atenta empertigada
                                          a cada esquina
como se fossem fotografá-lo
                                            na mesma hora
                                                                    para os Discos RCA
                            ouvindo
                                        A Voz do Dono
                       e olhando
                                       como um ponto de interrogação vivo
                                                                                                no
                                                                                   grande gramofone
                                                                               da existência intrigante
                     com seu prodigioso corno oco
                               que parece
                        sempre pronto a cuspir uma resposta
                                                                         alguma Victoriosa resposta
                                                                                     para tudo

Lawrence Ferlinghetti,
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça

Obbligato do Bicho Louco

Vamos
Venha
Vamos
tirar tudo do bolso
e desaparecer.
Faltar a todos os compromissos
e só voltar de barba grande
anos depois
velhos papéis de enrolar cigarro
enfiados na calça
e folhas no cabelo.
Vamos parar
de nos preocupar
com os pagamentos.
Eles que venham
e levem tudo
seja lá o que for
pelo que pagamos.
E que até levem a nós.

Vamos levantar para ir
lá onde as piranhas adoram
No Alto do Morro
onde elas seguram tremores
de terra atrás de pardieiros perdidos
entre canos de gás restos de comida.
Tomemos os Pardieiros Urbanos
pelo que eles são realmente.
A pátria os chora.
Vamos desaparecer imergindo
em cemitérios de automóveis
e reaparecer anos depois
catando trapos e jornais
secando a cueca no
calor do lixo queimado
com o rabo remendado.
Não se dê ao trabalho
de dar adeus
a uma só pessoa.
Nossa ausência não desolará sua esposa.
Vamos com todo
nosso cheiro animal
por onde os bancos estão cheios
de estátuas dispensadas do parque
à escura noite interior
da zona florida
olhos aguados
pela contemplação
das garrafas vazias de moscatel.
Vamos declamar nas esquinas
lendo bíblias bichadas
Seguir piranhas no porto
Falar canções de selvageria
Jogar pedras
Dizer qualquer coisa
Piscar pro sol se coçar
tropeçar para cair no silêncio
Papear nas portas
conhecer putas de terceira mão
depois que todos já se fartaram
andar cambaleando abismado no pôr-do-sol sobre o rio
dormir em cabines telefônicas
vomitar num balcão de loja de prego
batalhando por um casaco de inverno.

Vamos levantar e descer
sob a cidade
onde os cinzeiros de pé saem rolando
e ressurgem em roupas pútridas
como os reis subterrâneos sem coroa
dos mictórios do metrô.
Vamos dar comida aos pombos
da Prefeitura
exortando-os a que cumpram seu dever
no gabinete do Prefeito.
Se apresse que está na hora
o fim se aproxima
Faíscas afluem
Há desastres no sol
Os cães estão soltos
E uma irmã na rua
usa o sutiã para trás.
Vamos logo ingressar
na escura noite interior
da zona calma da alma
e encontrar nossos seres renovados
onde os metrôs defeituosos esperam
sob o Rio.
Cruze para
o pleno maravilhar-se.
A Barca do Sul não vai sair para sempre.
Já estão aliás tirando as barcas
da Baía mas ainda não é tarde demais
para ir se perder em Oakland.
Washington ainda
não caiu do cavalo.
Ainda há tempo para incentivá-lo
e então se mandar
largando para trás o formulário do imposto
de renda o relógio à prova d'água
e indo às tontas procurar por pivetes
sob a Ponte de Brooklyn
estátuas de calças largas no vento
nossos gritos de guerra e a voz de lixo
avisando pastosa
que vende coisinha!
Vamos parar vamos ir
para o interior real do país
onde o reino do penhor
pende para a pura anarquia.
O fim está aqui
mas o golfe continua lá em Burning Tree.
Está chovendo desabando água
e o Velho continua roncando.
Vem vindo aí outro dilúvio
mas não do tipo que você pensa.
Ainda há tempo para pular de cabeça
e pensar à beça.
Meu desejo é descer na sociedade.
Quero todo ser livre.
Simples rele quadriga amiga.
Não esperemos cadillacs
que nos carreguem triunfantes
pelo interior
acenando aos nativos
como senadores romanos nas províncias
com lauréis de poeta
postos nas suas testas ilustres.
Não esperemos a matéria
na 1ª página do
The New York Times Book Review
imagens de insano sucesso
mandando lá do retrato um sorriso.
Quando eles derem tua foto
na revista Life
você de resto já terá se tornado um negativo
uma cópia de acabamento brilhante.
Já terão vindo e te pegado
para ser famoso
mas você não terá ficado livre.

Tchau que eu me vou.
Vou vender tudo
e dar o resto
para as Indústrias da Boa Vontade.
Lá deve estar fazendo escuro
com a Banda do Exército da Salvação
e a mente sua própria iluminação.
Tchau que estou saindo de cena.
Fim de papo pra mim.
O sistema está todo contaminado.
Roma nunca foi como isso.
Estou cansado de esperar por Godot.
Estou indo para onde as tartarugas saem ganhando
estou indo lá
onde os pilantras morrem de vomitar.
Nada das tristes esplanadas
do mundo oficial.
Coisinha à venda!
E a pátria lamenta.
Vamos pois nós dois
largando as gravatas penduradas num poste.
Assumindo a barba
da anarquia andarilha
com uma cara de Walt Whitman
e uma bomba feita em casa no bolso.
Quero descer na escala social.
A alta sociedade é a sociedade baixa.
Na ascenção social
eu subo para baixo
e a descida é dura.
O Ideal da Alta Classe Média
é para os pássaros
mas nem os pássaros precisam dele
pois têm sua ordem de bicar
baseada no canto.
E os pombos se contentam no chão.
Vamos levantar para ir
para a Ilha de Liberfri.
Deixa pra lá os traficantes de paz.
Corre que é hora.
Vamos levantar e avançar
até o fundo
da Cafeteria Foster.
Tchau Emily Post.
Tchau
Lowell Tomas.
Tchau Brodway.
Tchau Herald Square.
Desliguem tudo.
Confundam todo o sistema.
Cancelem nossas folgas.
Percam a guerra
sem matar ninguém.
Que os cavalos urrem
e as mulheres corram
para onde se empoar sem rubor.
O fim acaba de começar.
Eu pretendo anunciá-lo.
Corra não ande
para a saída mais próxima.
O terremoto real já está aí.
Posso sentir o edifício tremendo.
Sou o tipo do cara refinado.
Não suporto isso.
Vou passar
por pilhas de avaliações
de agentes alfandegários que se dizem
críticos literários.
Meu instrumento está com pó.
Meu corpo ficou tempo demais
pendurado em suspensores estranhos.
Me arranje um lenço indiano
para eu usar como colhoneira.
Relaxemos fiquemos fora
do ponto no qual carros colapsam
e o mundo novamente começa.
Mas corre que já é tempo.
Já é mais do que tempo
e ainda tem a fricção.
Viramos garotinhos bonzinhos pensando em bloco.
Passemos agora
para a trilha da eternidade.
Nalgum lugar os campos estão cheios
de cotovias.
Nalgum lugar a terra está dançando.
A pátria chora.
Estou cantando.

Vamos levantar para ir
para a Ilha de Liberfri
e ali viver a veravida
azul e simples
de assombro e sabedoria
onde todas as coisas
crescem cantando
cada qual a seu modo
no sol amarelo
papoulas no trajeto das vacas
anjos pensativos na bosta.
Tenho de me erguer e partir
para a Ilha de Liberfri
que fica por detrás das palavras
mancas e dos bosques da Arcádia.

Lawrence Ferlinghetti,
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça

Estou esperando

Estou esperando que meu caso seja lembrado
e estou esperando
um renascimento do maravilhoso
e estou esperando que alguém
descubra de fato a América
e se lamente
e estou esperando
a descoberta
de uma nova fronteira simbólica no Oeste
e estou esperando
que a Água Americana
estenda realmente suas asas
e se aprume e alçe vôo
e estou esperando
que a Era da Ansiedade
caia dura e morta
e estou esperando
pela guerra que virá
preparando o mundo
para a anarquia
e estou esperando
pelo definhamento definitivo
de todos os governos
e estou perpetuamente à espera
de um renascimento do maravilhoso

Estou esperando a Segunda Vinda
e estou esperando
um renascimento religioso
que se alastre pelo estado do Arizona
e estou esperando
que as Vinhas da Ira sejam estocadas
e estou esperando
que elas comprovem
que Deus realmente é Americano
e estou seriamente esperando
que Billy Graham e Elvis Presley
troquem seus papéis seriamente
e estou esperando
que Deus apareça na televisão
empoleirado nos altares da igreja
caso eles consigam
sintonizar
o canal correto
e estou esperando
que a Última Ceia seja requentada
e servida com um novo e exótico aperitivo
e estou perpetuamente à espera
de um renascimento do maravilhoso

Estou esperando que meu número seja chamado
e estou esperando
pelo final vivo
e estou esperando
que meu velho retorne para casa
com os bolsos cheios
de dólares de prata radiante
e estou esperando
que os testes atômicos terminem
e estou esperando alegremente
que as coisas piorem de verdade
antes de melhorarem definitivamente
e estou esperando
que o Exército da Salvação tome conta da situação
e estou esperando
que a multidão humana
se despenque de um precipício em algum lugar
agarrada a seu guarda-chuva atômico
estou esperando
que Ike atue
e estou esperando
que os humildes sejam abençoados
e herdem a terra
sem pagar imposto
e estou esperando
que as florestas e os animais
reclamem a terra como sua
e estou esperando
que se articule alguma forma
de acabar com todos os nacionalismos
sem matar ninguém
e estou esperando
que os pintarroxos e os planetas caiam como chuva
e estou à espera que os amantes e as carpideiras
deitem-se juntos outra vez
num renascimento do maravilhoso

Estou esperando que a Grande Barreira seja cruzada
e estou ansiosamente à espera
que o segredo da vida eterna seja descoberto
por um obscuro clínico geral
e me salve para sempre da morte certa
e estou esperando
que a vida comece
e estou esperando
que as tempestades da vida
cessem
e estou esperando
soltar velas e zarpar para a felicidade
e estou esperando
um Mayflower reconstruído
que chegue à América
com os direitos de sua epopéia
para quadrinhos e TV
já vendidos antecipadamente para os nativos
e estou esperando
que a melodia perdida ressoe novamente
no Continente Perdido
num novo renascimento do maravilhoso

Estou esperando o dia
em que tudo se esclarecerá
e estou esperando
que o Old Man River
deixe de perambular
pelos arredores do Country Club
e estou esperando
que o extremo Sul
pare de se reconstruir interminavelmente
à sua própria imagem
e estou esperando
que a mulher rendeira
me ensine a fazer renda
e me leve de volta pra Velha Virgínia
e estou esperando
que a Velha Virgínia descubra
porque os negros nascem
e estou esperando
que Deus observe
da Montanha da Observação
e compreenda que a Ode aos Confederados Mortos
na verdade é uma farsa
e estou esperando a punição
pelo que a América fez
a Tom Sawyer
e estou perpetuamente à espera
de um renascimento maravilhoso

Estou esperando que Tom Swift cresça
e estou esperando
que o Garoto Americano
arranque as roupas da Beleza
e se aconchegue à ela
e estou esperando
que Alice no País das Maravilhas
me retransmita
por completo seu sonho inocente
e estou esperando
que o Cavaleiro Rolando atinja
a última e mais sombria torre
e estou esperando
que Afrodite
germine armas vivas
na conferência final do desarmamento
num novo renascimento do maravilhoso

Estou esperando
sentir algumas insinuações
da imortalidade
ao relembrar minha tenra infância
e estou esperando
pelo retorno das manhãs repletas de esperança
pelo retorno dos verdes campos singelos da adolescência
e estou esperando
que calafrios de arte espontânea
percorram minha máquina de escrever
e estou esperando escrever
o poema impecável e definitivo
e estou esperando
pelo longo louco êxtase desleixado
e estou perpetuamente à espera
que os esquivos amantes da Ânfora Grega
consigam finalmente agarrar-se
num abraço profundo
e estou esperando
perpetuamente e para todo o sempre
um renascimento do maravilhoso

Lawrence Ferlinghetti,
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça

Autobiografia

Estou levando uma vidinha mansa
no bar do Mike o dia inteiro
sacando os campeões
de bilhar do salão do Dante
e os viciados em fliperama.
Estou levando uma vidinha mansa
na zona leste da Brodway.
Sou americano.
Fui um garoto tipicamente americano.
Li a revista do Garoto Americano
e virei escoteiro
nos subúrbios.
Pensei que era Tom Sawyer
pescando pitu no rio do Bronx
e me imaginando no Mississipi.
Tive uma luva de baseball
e uma bicicleta American Flyer.
Distribuía o Woman's Home Companion
às cinco da tarde
ou o Herald Tribune
às cinco da manhã.
Ainda posso ouvir o baque do jornal caindo
em alpendres esquecidos.
Tive uma infância infeliz.
Vi Lindberg aterrar.
Olhei para minha terra natal
E não vi anjo nenhum.
Fui pego roubando lápis
num bazar barato
no mesmo mês que fui promovido a Escoteiro-Chefe.
Derrubei árvores para o Departamento de Agricultura
e sentei sobre elas.
Desembarquei na Normandia
num barco a remo que virou.
Vi exércitos refinados
na praia em Dover
Vi pilotos egípcios em nuvens púrpura
lojistas enrolando seus toldos
ao meio-dia
salada de batatas e dente-de-leão
em piqueniques anarquistas.
Estou lendo "Lorna Doone"
e uma biografia de John Most
terror dos industrialistas
com uma bomba sempre na escrivaninha.
Vi lixeiras desfilarem
na parada do dia de Colombo
atrás dos corneteiros
barulhentos e desinibidos.
Não visito a clausura dos Mosteiros
faz tempo
nem tampouco as Tulhas
mas continuo pensando
em ir.
Vi o desfile dos lixeiros
enquanto nevava
Comi muito cachorro-quente frio nas feiras.
Ouvi o Discurso do Gettysburg
e o Discurso do Ginsberg.
Gosto daqui
e nem penso em voltar
para donde vim.
Também eu viajei em vagões de carga vagões de carga vagões de carga.
Viajei entre homens desconhecidos.
Estive na Ásia
com Noé na Arca.
Estava na Índia
quando Roma foi construída.
Visitei a Manjedoura
com o Burro.
Vi o Eterno Distribuidor
do White Hill
Ao sul de San Francisco
e a Mulher-que-Ri no Loona Park
do lado de fora da Tenda das Gargalhadas
sob a tormenta
mas sempre rindo
tenho ouvido o som dos folguedos
à noite.
Tenho perambulado solitário
como as multidões.
Estou levando uma vidinha mansa
nas redondezas do bar do Mike todos os dias
vendo o mundo cruzar
em seus curiosos sapatos
Certeza vez iniciei
uma caminhada em torno do mundo
mas desisti no Brooklyn
Aquela ponte foi demais para mim.
Já tentei o silêncio
o exílio e a astúcia.
Voei muito próximo ao sol
e minhas asas de cera se derreteram.
Estou procurando pelo meu Velho
que jamais conheci.
Estou procurando pelo Líder Perdido
com quem voei.
Os jovens deveriam ser exploradores.
O lar é o ponto de partida.
Mas Mamãe nunca me preveniu
que haveria cenas como essas.
Útero ulterior
estou farto dele
Tenho viajado.
Estive numa cidade fantasma.
Perambulei entre multidões múltimas.
Ouvi Kid Ory choramingar.
Ouvi o sermão de um trombone.
Ouvi Debussy
filtrado por um lençol.
Dormi numa centena de ilhas
onde os livros eram árvores.
Ouvi pássaros
ressoando como sinos.
Usei velhas calças de flanela
e caminhei pela praia do inferno.
Busquei abrigo numa centena de cidades
onde as árvores eram livres.
Que metrôs que táxis que cafés!
Que mulheres com cegos seios
membros perdidos entre arranha-céus!
Tenho visto estátuas de heróis
nos entroncamentos.
Danton lacrimejando na entrada do metrô
Colombo em Barcelona
apontando para Oeste, pros lados de Ramblas
em direção ao American Express
Lincoln em seu trono de rocha
E um enorme Rosto de Pedra
no Dakota do Norte.
estou sabendo que Colombo
não inventou a América.
Ouvi uma centena de Ezra Pounds amestrados
Acho que todos eles deveriam ser soltos.
Já se passou muito tempo desde que fui pastor
Agora levo uma vida mansa
no bar do Mike diariamente
lendo os Classificados.
Li as Seleções do Reader's Digest
de cabo a rabo
e notei a perfeita identificação
entre os Estados Unidos e a Terra prometida
já que em todas as moedas está impresso
CONFIAMOS EM DEUS
mas nas notas de dólar não é inscrição alguma
porque são deuses elas próprias.
Leio diariamente a seção Precisa-se
em busca de uma pedra uma folha
uma porta esquecida.
Ouço a América cantar
nas Páginas Amarelas.
Quem diria
a alma também tem crises.
Leio os jornais todos os dias
e noto os equívocos da humanidade
e o excesso lamentável de artigos impressos.
Vejo que o lago de Walden foi drenado
para que se construísse um parque de diversões.
Vejo que estão fazendo Melville
comer sua baleia.
Vejo também que uma nova guerra vem aí
mas não serei eu quem vai lutar nela.
Li os grafites
nas paredes das privadas.
Ajudei Kilroy a escrevê-los.
Marchei pela Quinta Avenida acima
tocando clarim num severo pelotão
mas me mandei correndo pra Casbah
procurando por meu cão.
Noto alguma semelhança
entre os cães e eu.
Cães são os verdadeiros observadores
percorrendo os quatro cantos do mundo
e a região de Molloy.
Cruzei becos
estreitos demais para Galaxies.
Vi centenas de carroças de leite sem cavalos
num terreno baldio em Astória.
Ben Shahn jamais as pintou
mas elas estão lá retorcidas no Astória
Escutei o Obbligato do Bicho louco
Percorri super-auto-estradas
e acreditei na promessa dos cartazes
Cruzei as planícies de Jersey
e vi as cidades da Planície
E chafurdei nos ermos de Westchester
entre bandos de nativos nômades
em seus carroções.
Eu os vi.
Eu sou o homem.
Eu estive lá.
Eu sofri
um pouco.
Eu sou americano.
Tenho passaporte.
Não sofri em público.
Sou jovem demais para morrer.
Sou um homem que se fez a si próprio.
Sou um selfmadman.
E tenhpo planos para o futuro.
Estou na fila
à espera dum emprego de primeira.
Talvez me mude
pra Detroit.
Por enquanto vou me virando
como vendedor de gravatas.
Sou um Zé Ninguém.
Mas no fundo um bom sujeito
Sou um livro aberto
pro meu patrão.
Sou um mistério impenetrável
pros meus amigos mais íntimos.
Vou levando essa vida mansa
no bar do Mike o dia inteiro
contemplando o umbigo.
Sou uma parte
da longa loucura do corpo.
Tenho vagueado por bosques noturnos.
Tenho me amparado em umbrais embriagados.
Tenho escrito histórias frenéticas
sem pontuação.
Eu sou o homem.
Eu estive lá.
Eu sofri
um pouco.
Sentei em cadeiras de cansaço.
Sou uma lágrima do sol.
Sou a colina
pela qual os poetas trepam.
Inventei o alfabeto
depois de observar o vôo das garças
que faziam letras com as pernas.
Sou um lago na planície.
Uma palavra
numa árvore.
Sou uma montanha de poesia.
Uma blitz no inarticulado.
Sonhei
que todos os meus dentes caíram
mas a língua sobreviveu
para contar a história.
Porque sou um silêncio
poético.
Sou um banco de canções.
Sou o pianista
de um cassino abandonado
numa colina à beira-mar
em meio ao nevoeiro
mas sempre a tocar.
Vejo certa semelhança
entre a Mulher Que Ri
e eu.
Ouvi o som do verão
sob a chuva.
Vi garotas em plataformas de madeira
com estranhas sensações.
Compreendo suas hesitações.
Sou um colhedor de frutas.
Já percebi como os beijos
provocam euforia.
Corro o risco de ficar encantado.
Vi a Virgem
sob uma macieira em Chartres
E Santa Joana ardendo
em Bella Union.
Vi girafas no jangal
seus pescoços como o amor
entrelaçados nas circunstâncias férreas
deste mundo.
Vi Vênus Afrodite
sem braços em seu corredor ventoso.
Ouvi o lamento da sirene
na Quinta Avenida.
Vi a Deusa Branca vailando
na Rue des Beaux Arts
no Dia da Independência
e a Bela Dama Sem Compaixão
com um dedo no nariz em Chumley's.
Ela não falava inglês.
Tinha o cabelo loiro
e a voz rouca
e nenhum pássaro cantarolava.
Vou levando uma vida mansa
no bar do Mike todos os dias
sacando os jogadores de bilhar
lambuzando a cena com minestroni
e devorando macarrão
e li em algum lugar
o Significado da Existência
mas esqueci
exatamente onde.
Mas eu sou o homem
E eu estarei lá.
E talvez possa despertar os lábios
daqueles que
ainda dormem.
E talvez transforme meus papéis
em folhas de relva.
E talvez ainda escreva meu
anônimo epitáfio
instruindo aos cavaleiros
que passem.

Lawrence Ferlinghetti,
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Tocado
      o coração logo se agita
                                        e arqueja 'Amor'
  um peixe alucinado que tenta
      tirar seu fôlego da carne do ar

E não há ninguém ali para escutar sua morte
                                         no meio das moitas tristes
              por onde o mundo passa em riste
                                              numa efusão de atrasos e de asfalto

Lawrence Ferlinghetti
no livro Um parque de diversões da cabeça
 Em toda minha vida jamais deitei com a beleza
               confidenciando a mim mesmo
                                                               seus encantos exuberantes
Jamais deitei com a beleza em toda minha vida
                                                                     e tampouco menti junto a ela
                      confidenciando a mim mesmo
                                                         como a beleza jamais morre
                      mas jaz afastada
                                          entre os aborígenes
                                                                     da arte
                      e paira muito acima dos campos de batalhas
                                                                                       do amor
                Ela está acima disto tudo
                                                      oh sim
      Está sentada no mais seleto dos
                                                        bancos do templo
   lá onde os diretores de arte encontram-se
para escolher o que há de ficar eterno
                                                           E eles sim deitaram-se com a beleza
                              suas vidas inteiras
                                                           E deliciaram-se com ambrosia
       e sorveram os vinhos do paraíso
                                                           Portanto sabem com precisão
   como algo belo é uma jóia
             rara rara
                           e como nunca nunca
                poderá desvanecer-se
                                         num investimento sem tostão
      Oh não jamais deitei
                                 em Regaços da Beleza como esses
    receoso de levantar-me à noite
                                             com medo de perder alguma forma
algum movimento que a beleza pudesse esboçar
          No entanto dormi com a beleza
                                               da minha própria e bizarra maneira
     e aprontei uma ou duas cenas muito loucas
                                                                  com a beleza em minha cama
       e daí transbordou um poema ou dois
        e daí transbordou um poema ou dois
                                               para esse mundo que parece o de Bosch

Lawrence Ferlinghetti
no livro Um parque de diversões da cabeça
                       

terça-feira, 14 de julho de 2015

Eternidade

Ele reviu-se:
não era mais
nem corpo
nem sombra
nem escombros.
Como foi isso?
Tudo irreal:
um barco
sem mar
a boiar.
Ele sentiu-se:
recomeçava.
Vivera
morrendo
numa estrela.
Ele despiu-se
de quê?
De tudo
que amara.
Surdo-mudo
cegara.
Agora vê.
Jorge de Lima

segunda-feira, 6 de julho de 2015

valquírias

viverei mil anos na galícia de tuas coxas,
teu pólen serão as ilhas onde descansarei
os navios apedrejados de minha esperança.

nos teus olhos, um enjambement de lírios,
nos teus quadris, minha galáxia herdada.

não falemos, então, nada além dos olhos,
firmarei em teus olhos minha vaga nação.

em sarabandas lunares repaginar carícias,
virar do avesso a ruína do segundo parto.

dentro de ti serei sempre o pastor anfíbio
e a violência explodirá em sutis enxadas,
enxadas e pisadas sobre nuvens velozes
e já não estaremos mais entre os mortos.

pelo instante em que tocarmos as pontas
do nosso milagre comum, afirmaremos
a comunhão das espécies e o sono do fim.

Leonardo Marona,
no livro "óleo das horas dormidas"

bravata

eu sei, meu amor, que contigo aqui no meu colo,
tuas pernas duras, eu não preciso de mais nada,
e eu sei, meu amor, eu sei, todos nós sabemos,
que você está certa, eu sempre sonhei com um amor
que, como você, pudesse me ver escrevendo,
trabalhando no que mais amo e não trocaria nunca,
e eu sei, mamacita, dizemos sempre, ou tentamos,
coisas doces um ao outro, dessas de seguir vivendo,
mas acontece, meu amor, que eu preciso morrer,
eu preciso morrer horrivelmente, vergonhosamente,
eu preciso morrer como morreram meus heróis,
eu preciso morrer numa estrada para o méxico,
eu preciso morrer de tifo, de sífilis, de paixões abissínias,
eu preciso morrer sem deixar nada além de um prêmio nobel
e comentários inteligentes de homens já sem próstata,
enquanto, nos jornais, eles dirão: grande escritor, abençoado
com a capacidade de narras as questões medulares da raça humana,
morre de forma chocante, paródica, um tiro de espingarda na boca,
e isso não será de todo feio, minha paixão, eu espero
que você me entenda, eu não preciso de cura ou benção,
estou abençoado pelas caronas nos trens de carga,
quero estar tremendo um dia, numa estrada de neve,
quero saber quem é quem nesse dia, por essa estrada,
e, sabendo quem é quem, quero tremer de medo, pensar:
vergonha por tudo que pensei ter feito, e sentar,
tocar uma bela punheta no meio do mato e sorrir
com os mesmos velhos dentes dos quais um dia disseram:
um belo sorriso, rapaz intrigante, a febre da raposa,
e quero morrer fulminantemente neste dia, no meio da neve,
mas agora você me dá seus pés, você deita seus pés no meu colo
enquanto escuto higway 61 e isso é tão bom quanto uma bravata,
mas talvez não tanto quanto esta porque, meu amor, eu farei.

Leonardo Marona,
no livro "óleo das horas dormidas"

tudo é concha

quem acha sem procurar é quem
longamente buscou sem encontrar
(gaston bachelard)

viramos a curva agora e não há lenço
na despedida do que se arrasta conosco,
mas são pedaços tristes de um vietnã
retido em cada célula mas então adeus,
madrugadas com o coração em chamas
nos postos de gasolina de meus anos,
adeus sem pressa, mas por fim adeus,
cúpula tensa de cataclismos telúricos,
chave de braço do perdão e olho roxo,
ronco suave da droga no embalo mítico,
tudo é concha na mandíbula do soalho,
susto cardíaco do amor, suor das veias,
reclame em perdigotos ao céu da fuga,
tempo sem tempo em que o tempo vive
agora afogado na ampulheta do manejo,
rastro sem bicho do que caíram órgãos,
rumor de cimento nos poros da beleza,
azuis as fadas azul a tristeza azul o nada,
agora apenas amarelas as folhas mortas,
velho para a música e novo para calçar
os sapatos que nos cospem és um adulto,
portanto adeus ao que nem lembro e sou,
essa matéria que engole e cospe e somos
o que nos resta dela em cílios trêmulos e
bocas tortas para baixo num cerne rude,
agora já viramos a curva e não há lenço
nos narizes de antigas e dolorosas ninfas,
é passar ao largo e engolir o verde musgo
da vida ainda líquida da primeira latência,
agora que lembrar é o crime da memória
e despedir-se é lançar através da vidraça
os corpos perdidos que um dia pensamos:
têm frio mas, apesar de tudo, veem a luz,
verde entranha tracejada de escuro cínico.

Leonardo Marona,
no livro "óleo das horas dormidas"

cair de amor

é preciso cair de amor,
é preciso, é mais que tempo,
que seja uma terrível queda,
uma intolerável queda de amor.
quando me olho no espelho,
quando fecho ou tiro o cinto,
quando compro bússolas,
quando observo as vitrinas,
quando faço mal a barba
ou não faço a barba por semanas,
quando vejo um gato na chuva
ou me envergonho se karen dalton
enruga meu ventre com microtons,
quando eu me virar assustado,
eu sei, é preciso, não há mais
tempo para fugas, não tenho mais
muito da minha reserva pessoal
de amor e quando pisco nas ruas
ou visto minha nobre jaqueta emprestada
e me atribuo tapinhas de incentivo,
quando fumo como um detetive suíço
ou faço as vezes de comediante asmático,
não pode ser, inevitável, existe prazo
limite para tudo e agora, sim, agora
é mais que preciso cair de amor.
então não venha me falar quando
tivermos percorrido quilômetros
e na hora não soubermos dizer.
cair de amor, não existe a hora,
amor é o que faz cair e caído
permanece aos pés do que aos pés
é preciso cair, nas ruas, em postes,
nas filas dos desempregados,
nas blitz policiais e nos bálcãs,
mesmo em cemitérios é possível,
nas fases de luto ou sem sorte,
bater e cair, quando, suando,
estiverem ainda desempenhados
os pedaços da vertigem solene.

Leonardo Marona
no livro "óleo das horas dormidas"

ando ouvindo belchior

como criança sem pernas mergulho
perplexo sobre o indivisível feixe.
mais que perplexo e, na verdade,
não mergulho, empurram-me na direção
do meu destino de crianças sem pernas,
e sou obrigado a me diluir ou morrer.

a escolha óbvia sobrepõe a resolução
das pendengas, sem chance ou esperança
sinto-me pasmo com o rumo das coisas,
caverna e dinheiro, as duas simbologias
me determinam e me arrancam pedaços.
as pernas que me faltam eu tento forjá-las
na cabeça, e nada me resta a não ser criar
um novo gólem, e então admitir: o futuro
é para os mortos, presente a morte anunciada.

com o que chamo de meu corpo desconhecido
parto como quem arrasta o próprio corpo
que cai do oitavo andar, os fundilhos das calças
esfarelam em contato com a pele que os pernilongos
ávidos por mim não me deixam esquecer que é doce
como doce é minha gangrena quando as hienas
se aproximam e, repentinamente, são muitas
as hienas sedentas de doçura, mitologias suicidas
seduzem meu coração desesperado, converso
com as pessoas e sinto: não há outra chance
a não ser me diluir entre os operários raivosos de londres,
partir é preciso, ou morrer, e morrer é mais preciso que partir,
mas como eu consigo manter os pés no chão! - e que pés?
e que chão? - como é possível que o susto transpareça
tamanha tranquilidade diante das cores novas!

haverá de ser como criança sem pernas.
a raiva será o motor do susto contínuo, os olhos
ficarão bem abertos, a voz (isto é absolutamente necessário)
enlouquecerá a ponto de sumir ou tornar-se súplica do corpo,
então haverá, quem sabe, por fim um corpo a que se fazer ruína,
e a ruína terá então o seu lugar privilegiado de costas para o sol,
e então a carne enfraquecida falará, misturada aos empecilhos
de fluidos alquímicos e graves entorpecentes, que por falta
de força e inegável inclinação ao erro em descrença doce,
como as hienas são doces, crianças sem pernas, meu gólem,
minha invenção em que tampouco me reconheço e, ao contrário,
me sobressai e não anda comigo, porque aqui não andarei
mais comigo, vou me deixar inocular pela raiva dos operários
e fazer com que as palavras tornem-se flores carnívoras,
porque não haverá mais agora o empilhamento
dos pedaços caídos de apenas um dos lados.

trocarei meus pedaços com outros despedaçados
e seremos um enorme corpo de possibilidades de corpo.
esqueceremos um pouco o limite que se avista
do umbral como a face da foice, andaremos até o cansaço,
nem que seja o mesmo caminho, nunca mais sozinhos
e ao mesmo tempo sendo todos um grande acúmulo,
dos nossos pedaços e dos pedaços alheios,
para brotar feito chaga de febre
sobre os ossos da beleza desdentada.

Leonardo Marona
no livro "óleo das horas dormidas"

a barca de niterói

gosto do teu hálito de sono, do cheiro
inconstante de esperma e travesseiro -
me sinto muito bem na barca de niterói.

enquanto todos correm para seus lugares,
lambo meus beiços e cheiro meu bigode,
feliz por um momento apesar das botas
dos mortos que boiam na baía semiextinta.

são mortos que nunca sentiram teu cheiro,
o cheiro de dentro de ti nos bigodes, pobres,
se afogaram porque sempre falta alguma coisa
a um homem quando ele decide deixar as botas
em pleno mar, mas na verdade, não importam
as botas flutuantes - estou feliz porque você
não me dá pressa quando tudo grita pressa!

então me recordo de quando eu acordava
e ia à janela enorme, e a rua já tão cedo
tão cheia de pressa, e eu agora sem nenhuma.

ver você era a voz que diz não tenha pressa,
olhe mais para ela, como dorme sem culpa,
e eu, como bom católico, pecava sem culpa
por te olhar, tua pele oleosa, teu quase ronco,
tua forma espatifada de ser simplesmente tudo,
e tudo me fazia esquecer janela, pressa, carros,
e pensar apenas num nome para um filho, assim,
despreocupadamente, como quem diz eu te amo.

Leonardo Marona
no livro "óleo das horas dormidas"

domingo, 31 de maio de 2015

Na cama

 Por uns momentos lá no quarto nós parecíamos dois estranhos que seriam observados por alguém, e este alguém éramos sempre eu e ela, cabendo aos dois ficar de olho no que eu ia fazendo, e não no que ela ia fazendo, por isso eu me sentei na beira da cama e fui tirando calmamente meus sapatos e minhas meias, tomando os pés descalços nas mãos e sentindo-os gostosamente úmidos como se tivessem sido arrancados à terra naquele instante, e me pus em seguida, com propósito certo, a andar pelo assoalho, simulando motivos pequenos pra minha andança no quarto, deixando que a barra da calça tocasse ligeiramente o chão ao mesmo tempo que cobria parcialmente meus pés com algum mistério, sabendo que eles, descalços e muito brancos, incorporavam poderosamente minha nudez antecipada, e logo eu ouvia suas inspirações fundas ali junto da cadeira, onde ela quem sabe já se abandonava ao desespero, atrapalhando-se ao tirar a roupa, embaraçando inclusive os dedos na alça que corria pelo braço, e eu, sempre fingindo, sabia que tudo aquilo era verdadeiro, conhecendo, como conhecia, esse seu pesadelo obsessivo por uns pés, e muito especialmente pelos meus, firmes no porte e bem feitos na escultura, um tanto nodosos nos dedos, além de marcados nervosamente no peito por veias e tendões, sem que perdessem contudo o jeito tímido de raiz tenra, e eu ia e vinha com meus passos calculados, dilatando sempre a espera com mínimos pretextos, mas assim que ela deixou o quarto e foi por instantes até o banheiro, tirei rápido a calça e a camisa, e me atirando na cama fiquei aguardando por ela já teso e pronto, fruindo em silêncio o algodão do lençol que me cobria, e logo eu fechava os olhos pensando nas artimanhas que empregaria (das tantas que eu sabia), e com isso fui repassando sozinho na cabeça as coisas todas que fazíamos, de como ela vibrava com os trejeitos iniciais da minha boca e o brilho que eu forjava nos meus olhos, onde eu fazia aflorar o que existia em mim de mais torpe e sórdido, sabendo que ela arrebatada pelo meu avesso haveria sempre de gritar "é este canalha que eu amo", e repassei na cabeça esse outro lance trivial do nosso jogo, preâmbulo contudo de insuspeitadas tramas posteriores, e tão necessário como fazer avançar de começo um simples peão sobre o tabuleiro, e em que eu, fechando minha mão na sua, arrumava-lhe os dedos, imprimindo-lhes coragem, conduzindo-os sob meu comando aos cabelos do meu peito, até que eles, a exemplo dos meus próprios dedos debaixo do lençol, desenvolvessem por si só uma primorosa atividade clandestina, ou então, em etapa adiantada, depois de criteriosamente vasculhados nossos pêlos, caroços e tantos cheiros, quando os dois de joelhos medíamos o caminho mais prolongado de um único beijo, nossas mãos em palma se colando, os braços se abrindo num exercício quase cristão, nossos dentes mordendo ao outro a boca como se mordessem a carne macia do coração, e de olhos fechados, largando a imaginação nas curvas desses rodeios, me vi também às voltas com certas práticas, fosse quando eu em transe, e já soberbamente soerguido da sela do seu ventre, atendia precoce a um dos seus (dos meus) caprichos mais insólitos, atirando em jatos súbitos e violentos o visgo leitoso que lhe aderia à pele do rosto e à pele dos seios, ou fosse aquela outra, menos impulsiva e de lenta maturação, o fruto se desenvolvendo num crescendo mudo e paciente de rijas contrações, e em que eu dentro dela, sem nos mexermos, chegávamos com gritos exasperados aos estertores da mais alta exaltação, e pensei ainda no salto perigoso do reverso, quando ela de bruços me oferecia generosamente um outro pasto, e em que meus braços e minhas mãos, simétricos e quase mecânicos, lhe agarravam por baixo os ombros, comprimindo e ajustando, área por área, a massa untada dos nossos corpos, e ia pensando sempre nas minhas mãos de dorso largo, que eram muito usadas em toda essa geometria passaional, tão bem elaborada por mim e que a levava invariavelmente a dizer em franca perdição "magnífico, magnífico, você é especial", e eu daí entrei pensando nos momentos de renovação, nos cigarros que fumávamos seguindo a cada bolha envenenada de silêncio, quando não fosse ao correr das conversas com café da térmica (escapávamos da cama nus e íamos profanar a mesa da cozinha), e em que ela tentava me descrever sua confusa experiência do gozo, falando sempre da minha segurança e ousadia na condução do ritual, mal escondendo o espanto pelo fato de eu arrolar insistentemente o nome de Deus às minhas obscenidades, me falando sobretudo do quanto eu lhe ensinei, especialmente da consciência no ato através dos nossos olhos que muitas vezes seguiam, pedra por pedra, os trechos todos de uma estrada convulsionada, e era então que eu falava da inteligência dela, que sempre exaltei como a sua melhor qualidade na cama, uma inteligência ágil e atuante (ainda que só debaixo dos meus estímulos), excepcionalmente aberta a todas as incursões, e eu de enfiada acabava falando também de mim, fascinando-a com as contradições intencionais (algumas nem tanto) do meu caráter, ensinando entre outras balelas que eu canalha era puro e casto, e eu ali, de olhos sempre fechados, ainda pensava em muitas outras coisas enquanto ela não vinha, já que a imaginação é muito rápida ou o tempo dela diferente, pois trabalha e embaralha simultaneamente coisas díspares e insuspeitadas, quando pressenti seus passos de volta no corredor, e foi então só o tempo de eu abrir os olhos pra inspecionar a postura correta dos meus pés despontando fora do lençol, dando conta como sempre de que os cabelos castanhos, que brotavam no peito e nos dedos mais longos, lhes davam graça e gravidade ao mesmo tempo, mas tratei logo de fechar de novo os olhos, sentindo que ela ia entrar no quarto, e já adivinhando seu vulto ardente ali por perto, e sabendo como começariam as coisas, quero dizer: que ela de mansinho, muito de mansinho, se achegaria primeiro dos meus pés, que ela um dia comparou com dois lírios brancos.

Raduan Nassar
em Um corpo de cólera

domingo, 24 de maio de 2015

Espelho

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Do jeito que for, desembaçado de amor ou aversão.
Não sou cruel, apenas  verdadeiro -
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
Na maior parte do tempo medito sobre a parede em frente.
Ela é rosa, pontilhada. Já olhei para ela tanto tempo,
Eu acho que ela é parte do meu coração. Mas ela oscila.
Rostos e escuridão nos separam toda hora.

Agora sou um lago. Uma mulher se dobra sobre mim,
Buscando na minha superfície o que ela realmente é.
Então ela se vira para aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e as reflito fielmente.
Ela me recompensa com lágrimas e um agitar das mãos.
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
A cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão.
Em mim ela afogou uma menina, e em mim uma velha
Se ergue em direção a ela dia após dia, como um peixe terrível.

Sylvia Plath
translated by André Cardoso
(in 34 LETRAS, issue 5/6, Ed. 34 Literatura and Nova Fronteira, Brazil, 1989)

Disponível em: http://www.sylviaplath.de/plath/mirror_po.html

domingo, 17 de maio de 2015

o corpo atravessado pelo tempo
frida atravessada pelo bonde
a música repleta de silêncio
o dentro mais que fora: dentrolonge
o tigre que devora william blake
a jaula de onde rilke não escapa
o dedo de mefisto na palavra
o brilho de corisco entre os dentes
o grito refletido na moldura
as costas de miguel naquele andaime
o doce que se esconde na cicuta
o inferno que ilumina a voz de dante
o dente da serpente em plena fruta
e tudo agora nada neste instante

Carlos Moreira
via Facebook

terça-feira, 12 de maio de 2015

Vinte e um. Segunda-feira. É noite.
No escuro uns contornos de cidade.
Algum vagabundo escreveu
Que na terra pode haver amor.
E por tédio ou preguiça,
Todos acreditaram e assim vivem:
Esperam encontros, temem adeus
E cantam canções de amor.
Mas a outros revela-se o enigma,
E o silêncio repousará sobre eles....
Descobri isto por acaso
E desde então sinto-me mal.
Anna Akhmatova

sábado, 2 de maio de 2015

uma canção de caminho

dorme bem,
amanhã o dia
ainda vai estar aqui.
os dentes dos cães
as tropas armadas
o silêncio que cai
ao estampido das balas
tudo isso já vivemos antes.
dorme bem,
amanhã o dia
ainda vai estar aqui.
os rolos de fumaça
sobem aos céus
os rios de sangue
correm ao mar
e a dor
sempre é possível
enquadrar numa fotografia.
vai, dorme bem,
amanhã o mundo
ainda vai estar aqui.
mesmo as noites sem lua
precedem as manhãs
e ainda que todos
fechem seus olhos
amanhã o dia
ainda vai estar aqui.


Micheliny Verunschk

domingo, 26 de abril de 2015

La rubia del Metro

MILONGA TRISTE

Llevaba la manzana
del día en la minifalda;
la tristeza de marzo
en la mirada.

En la estación Balderas
dejó pasar el Metro;
se sentó y sólo vimos
a una niña deshecha.

Casi lloraba y ya casi gemía
la rubita del Metro,
con sus muslos de leche,
su atroz melancolía.

Ay desdichado amor,
escolar y maldito.
¡  Ay la rubia del Metro!

Jamás nadie verá
un dolor como el suyo,
ni angustia parecida
ni tanta soledad...

Efraín Huerta
en Permiso para el amor

Siempre mía

Criatura irresistible, nube, voz de mi sueño,
suave espejo nupcial, escúchame en tu vida,
víveme con tu vida, ámame con tu amor
y déjame a tus plantas como raíz despierta.

Eres el árbol vivo de mi antiguo paisaje,
criatura hecha de amor, amorosa criatura;
eres la estatua dócil y la violenta lluvia,
y eres canto y silencio en mi templo de carne.

Criatura, piel de mi alma y sangre de mis labios;
deja que mi dolor se apoye en tu valiente
y clara juventud; deja que mis deseos
sean el vivo reflejo de tu proprio deseo.

Criatura hecha de besos, criatura siempre mía:
una orquídea en tu cuerpo me llama desde siempre,
y yo la bebo entera con mis labios-cuchillos
y me muero de fiebre sobre tu pecho abierto.

Eres diosa en mi sueño, hembra de mi delirio,
espejo de mi piel y azucena en mis brazos.
Déjame ser la espina nupcial y soberana
de tu soberbia vida. Déjame ser felíz.

Efraín Huerta
en Permiso para el amor

El día

                                                                                         Para Rosarito Ferré

El día ha llegado a mis ojos.
El día que muere es una lluvia dorada.
El día es tierno como el agua. Como el amor que nace.
El día es delgado y dulce. El día es el amor.
El día es una espada. Una rosa caliente.
El día me dijo: Buenos días. Y amé al día.
El día estaba en tus ojos de fino oriente.
El día eran tus ojos oscuros. Tu clara sonrisa.
El día quiso decirme Adiós. Y no me dijo nada.
El día y tú habían llegado a mis ojos.
El día eras tú. Tú eras el Buenos días. Y el Adiós.
El día. Siempre el día. Es decir, siempre tú.

Efraín Huerta,
en Permiso para el amor
5

Amor mío, encuéntrame.
Aislado estoy, sediento
de tu virgen presencia,
de tus dientes de hielo.
Hállame, dócil fiera,
bajo la breve sombra de tu pecho,
y mírame morir,
contémplame desnudo
acechando tu danza,
el vuelo de tu pie,
y vuélveme a decir
las sílabas antiguas del alba:
Amor, amor-ternura,
amor-infierno,
desesperado amor.

6

Amor mío, despiértame
a la hora bendita, alucinada,
en que un hombre solloza
víctima de sí mismo y ábreme
las puertas de la vida.
Yo entraré silencioso
hasta tu corazón, manzana de oro,
en busca de la paz
para mi duelo. Entonces
amor mío, joven mía,
en ráfagas la dicha placentera
será nuestro universo.
Despiértame y espérame,
amoroso amor mío.

Efraín Huerta, 1958,
Órdenes de amor, en Permiso para el amor

El retorno

Las paredes tienen oídos,
vientre y sangue.
Pero que no lo sepa el aire,
que lo ignoren el invierno
y el vendedor de esponjas;
que no se enteren mis fotografías que hablan;
que mi amor, oh montañas, oh cielos,
no levante su voz como raíz dulcísima.

Las paredes tienen oídos,
dientes, venas.
Pero que yo nunca, fumando,
diga su breve nombre de madera.
Que yo nunca sonriendo, pronuncie
su verdad: la cálida verdad.

Porque las paredes, como los sótanos,
tienen grandes oídos de herrumbre y frío,
desesperanza y pavor,
desconsuelo y locura.

Que yo nunca, en voz baja,
diga que he vuelto a amar.

Efraín Huerta
en Permiso para el amor

quarta-feira, 15 de abril de 2015

A Nair e Zaél Abreu

São Paulo, 12 de agosto de 1987

Querida mãe, querido pai,
 não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos - quase 40 - anos. Devo estar acostumado.
 Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês - que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio - que é tão ou mais delicado.
 Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como "eu gosto de você". Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida - como quem olha de uma janela - mas não consegue vivê-la.
 Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco - todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado - nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto. Amo vocês, seu filho
                                                           
                                                                                                                                              Caio

Caio Fernando Abreu
(A EPOPÉIA DO AMOR COMEÇA NA CAMA COM OS LENÇÓIS
        DESARRUMADOS FEITO UM CAMPO DE BATALHA)
   é ali que eu começo a nascer para a madrugada & suas
           vertigens onde você meu amor se enrosca em em
meu coração paranóico de veludo verde & as delícias de continentes
alaranjados dormem em seu rosto de pérolas turvas oh tambores do amor
            sem parar rumo às tempestades PLANETÁRIAS & suas
    cachoeiras tristes & pesadas como lágrimas
                gosto de gostar & a tv da alma amanhece bêbada & tenta
                                     dizer alguma coisa

Roberto Piva
no livro Abra os olhos & diga Ah!
(A POLÍTICA DO CORPO EM FOGO DO CORPO EM CHAMAS
  DO CORPO EM FOGO) APAGANDO A LUZ as trevas devoram
            teu corpo em chamas tua boca aberta teu suicídio
   de prazer na grama tuas mãos colhendo meu rosto
   de folhas machucadas na escuridão teu gemido à sombra
                das cuequinhas em flor
                          teus cabelos são solidamente negros

Roberto Piva
no livro Abra os olhos & diga Ah!

terça-feira, 14 de abril de 2015

quem soa não sou eu: é a palavra:
pedra áspera ou faca amolada
é ela quem fala
eu e tu somos no máximo a corda
mais ou menos tensa de uma harpa
ou bandolim de lata
tanto faz: é ela quem sabe a hora
e a forma absurda de tirar a nota
e estuprar o anjo
ninguém é poeta: somos o sonho
da palavra (arquetípico demônio):
eis o humano
Carlos Moreira

Sobre a arte de ser um fantasma

os que vierem (se vierem
não saberemos: o que portanto
é irrelevante) depois de nós
os que nascerem em outro
mundo daqui a duzentos
bilhões de anos e anos-luz
não verão mais as estrelas:
a linha dágua do universo
terá expandido tanto
que as galáxias brilharão
para ninguém: distantes
e inúteis olhos sem espelhos
navegarão sem tramontana
não saberão que surfamos
a explosão na sua onda
que amamos destruímos
escrevemos calculamos
o início luminoso da viagem
:
meu filho de repente
olha o céu a mim sorri:
que sorte nascermos agora e aqui
e eu digo: Sim
Carlos Moreira
inexorável a gravidade
entre as tuas cartilagens
inexorável o silêncio
daquilo que não dirás
porque não há a quem
inexorável o medo
de uma noite enorme
em tua mão fechada
e a sombra que escorre
por baixo da porta
inexorável o sorriso no retrato
mesmo que falso e cotidiano
inexorável a tua morte anunciada
a tua morte antecipada
pelo viés do tédio
inexorável o tempo
que levaste descobrindo o mundo
e o mundo é isso mesmo
inexorável teu próprio medo
teu medo tétrico
de voltar pra casa
inexorável tua vida inteira
tua língua teu corpo
tua palavra
um pouco além de nós
gargalha e cala
algum demônio
Carlos Moreira
: muito cedo ou tarde agora
para a corda no pescoço
para a hora do disparo
para pôr a alma fora
para a festa que acabou
e nem era madrugada
para a bala além do corpo
para o morto na calçada
e sua sombra que se move
para sempre além da escada
: não meter a mão no medo
nem a faca na garganta
existir além do muro
mesmo sendo a pedra dentro
mesmo estando tão por fora
quanto a fome além da fera
quanto o tempo de outro tempo
: e por ser assim excêntrico
(só por ser assim excêntrico)
pôr a roda em movimento
*
Carlos Moreira

sábado, 28 de março de 2015

Os três mal-amados - Joaquim

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

Difícil ser funcionário

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.
Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.
É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.
Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.
Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.
E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.
Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança
Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...
Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

João Cabral de Melo Neto

domingo, 22 de março de 2015

O Último Inimigo

A pêra após a pêra entretanto amadurece
a uva após a uva após o figo o figo
E eu que canto? Canto talvez a lua vagabunda e os eclipses do sol
ou a rota do âmbar escalando os entrepostos do mar Báltico
talvez o fim (ou o princípio) dos homens e dos seres

Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
ao peso de todos os anos que teriam
os mortos se houvessem morrido
Nenhuma outra idade lhe convém
e distraidamente eu o convoco
por cada criança que perdeu a inocência
E dir-me-à: "Esquece o teu nome a casa dos teus pais
pelo que não é teu terás um nome novo
Também Pilur
outrora recebeu o nome de Nilur"

Alguém - Febe, Cloé, Ápia, Lídia, Priscila... quem? -
se move repentinamente nas derramadas casas
aonde é mais real a sucessão das estações
e nem o filho pródigo nos vem já redimir
de tudo quanto tem uma cidade que se preza
se não nos esquecermos da carreta funerária
por cada voz extinta na garganta da cidade
O corpo é superior a vítimas e oblações
Não vem à flor do sonho o símbolo mulher
e há um ramo de oliveira e luz e campos entre dois ou vários rostos
e o fumo em que se esvaem tantos dias
e as crianças e as árvores e o mar
Como haveremos de salgar o sal?
Eu sempre fui estrangeiro nesta terra
eu não fiz mal a Deus por nada deste mundo
Só vi cair as árvores em julho
e conheci também a extrema solidão do vento
cravada como um escrúpulo na carne

A muitos anos-luz da infância inverosímil
enquanto nada acabou de todo ainda
nem no solo de Tróia cresce a sombra de uma lança
preparo cuidadosamente a minha morte
seguindo a linha norte-sul do litoral do medo
e acompanhando a progressiva imposição de línguas mais que indo-europeias
a noroeste das penínsulas do sonho
Volto-me para a morte e chamo como só Deus se chama
A morte é um vizinho que se ama

Não és ainda tu
Nunca nenhum de nós
É que não há ninguém
Deus é distante como o vento ou a vida
e no cúmulo da sede nenhuma fonte nasce
Naqueles que morreram confiávamos
mas não mais se erguerão no dia a dia desta terra
onde se colhe em cada rosto a flor imperecível do instante
Afunde então a melhor mão na mais profunda dor
entre as convulsas caravelas do teu pranto
e não mais saberás onde a haverás de pôr
Eu digo-te que é Jonas o único sinal
e Argos afinal a cidade onde devíamos voltar
levando em cada mão as tácteis flores de Santa Maria
para vivermos lá como dez anos antes
Não choraremos com as filhas de Jerusalém?

Permanecer sentados tantos dias sem nenhuma ideia
ou distraído olhar para a mosca de súbito importante
à frente um simples prato Moscavide e a manhã
sereno mundo líquido num copo
contrário desacordo com o corpo
e as árvores de pé como um insulto
ou na areia de qualquer perdida e pequenina praia ousar o gesto de imolar
às planas e quebradas mãos do mar a flor do que sabemos
e assim à líquida embaixada ensinar a soletrar
a orla do país que nesse instante fomos
talvez a ocidente do melhor que somos
- que as palavras remirão estes ou outros movimentos do olvido?

O inverno veio e não o recebemos
havia tanta coisa a receber
talvez nem fosse propriamente o inverno
mas tu, o grande distraído, que nos ouves
Quare ergo rubra vestimenta tua,
vindo de vestes rubras desde Bosra
na sempre repetida impiedade de Jacob?
Generationem eius quis narrabit?
A tua face, ó meu amigo, é alta como as coisas que se perdem
e demoramos nela os nossos melhores olhos
Aonde estás, Emmanuel, aonde?
Eu tive-te na boca e não te conhecia
e desejava ter aquilo que mais tinha
no próprio acto de o ter (e de o perder),
ó alegria inerente ao começo das coisas
Como desceste, ó desejado, das colinas eternas
para quebrares as pernas contra tantas portas fechadas sobre ti?
Que vieste fazer a Elsenor?
Perder-te nos passinhos insistentes miudinhos
usados nos caminhos das modernas praias
entre risos e lágrimas locais?
Ó grande distraído, que fizeste esta manhã?

Alguma coisa é a casa mais séria da vida
Não mais outras palavras que punhais
cravados como rios no flanco do mar
lá onde for mais íntimo o abraço
que gera o horizonte e sacrifica o espaço
Curae non ipsa in morte relinquimus
O homem é ainda o maior erro
e que melhor vingança que estender
a sua ausência toda sobre a terra devastada
O homem é um homem derrotado
um ser para chorar e nunca assaz chorado
um ser para cair excessivamente levantado
e Roma continua sobre as veias de Lucano

A morte é a verdade e a verdade é a morte
Ao homem não foi dado nenhum outro dia
e a vida é qualquer coisa como nunca mais chegar
É humano nascer
é humano tomar e apodrecer
oculta e lentamente
qualquer pedra última pedra
duobus duabus crianças diabos
pequeno almoço grande belt pequeno lord
o túnel Dante pace este relógio não anda
Coimbra onde é inumerável pedra
O homem Adão vindo do chão é um animal doente
ser permanentemente moribundo
coisa para esconder sob um pouco de terra
- em que lar faltará esta mulher? -
e vale a pena chorar

Ruy Belo
no livro O Problema da Habitação - Alguns Aspectos