domingo, 22 de fevereiro de 2015

Idade

Mente o tempo:
a idade que tenho
só se mede por infinitos.
Pois eu não vivo por extenso.
Apenas fui a Vida
em relampejo do incenso.
Quando me acendi
foi nas abreviaturas do imenso.
Mia Couto
No livro “Vagas e lumes”

sábado, 7 de fevereiro de 2015

ah por que não me colocaram uma crosta calosa, ao invés da carne uma matéria de fibras muito duras, e esticadas e tesas, essas cordas do arco, justapostas, ligadas, Jonathas e David fundidos, cordas de outra carne, massa imbatível e viva sobre Hillé, iria suportar a caduquice do mundo, o soco, a selvageria, a bestialidade do século, a fetidez da terra, iria suportar até, com Jonathas e David fundidos sobre a carne, as retinas cruas, as córneas espelhadas, as mil perguntas mortas. Iria? suportaria guardar no peito esse reservatório de dejetos, estanque, gelatinoso, esse caminhar nítido para a morte, o vaidoso gesto sempre suspenso em ânsia para te alcançar, Menino-Porco? Suportaria o estar viva, recortada, um contorno incompreensível repetindo a cada dia passos, palavras, o olho sobre os livros, inúmeras verdades lançadas à privada, e mentiras imundas exibidas como verdades, e aparências do nada, repetições estéreis, farsas, o dia a dia do homem do meu século? e apesar dessa poeira de pó, de toda cegueira, do aborto dos dias, da não luz dentro da minha matéria, a imensa insuportável funda nostalgia de ter amado o gozo, a terra, a carne do outro, os pelos, o sal, o barco que me conduzia, umas manhãs de quietude e de conhecimento, umas tardes-amora brevíssimas espirrando sucos pela cara, rosada cara de juventude e vivez, e uma outra cara de mansa maturidade, absorvendo o que via, lenta, os ouvidos ouvindo sem ressentimento

Hilda Hilst
no livro A Obscena Senhora D, pgs 33/34

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Ideia do amor

 Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente - tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

Giorgio Agamben,
no livro Ideia da Prosa
E quando meu cansaço cair de cansaço
Daí vou saber se era mesmo você
Se era tarde ou tempestade que passou sem ver
Sem nem dizer se ainda vai voltar...

https://www.youtube.com/watch?v=mo67A77-XWU

31/01/2015

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Trecho "Olhos azuis, cabelos pretos"

 O beijo se transformou em gozo. Aconteceu. Brincou com a morte, com o horror da ideia. Não foi seguido por nenhum outro beijo. Ocupa inteiramente o desejo, é seu próprio deserto e sua imensidão, seu espírito e seu corpo.

 Ela está na poça branca dos lençóis ao alcance de sua mão, o rosto descoberto. O beijo torna seus corpos mais próximos do que a nudez, o quarto.
 Pronto, ela desperta. Diz:
 - Você estava aqui.
 Ela olha em torno dele, o quarto, a porta, seu rosto, seu corpo.
 Pergunta se pensou outra vez em matá-la esta noite. Ele responde:
 - O pensamento novamente me ocorreu, mas como aquele de amar.
 Do beijo, não falarão.

 Ela está no primeiro sono.
 Ele sai, vai em direção inversa aos rochedos, ao longo dos grandes hotéis que margeiam a praia.
 Nunca mais voltara ali. Sem dúvida com receio de ser reconhecido por testemunhas como o verdadeiro autor de um escândalo - ele agora acredita - que acontecera ali naquela noite de verão. Encontra o lugar onde ficara perto da janela aberta em frente à do jovem estrangeiro de olhos azuis cabelos pretos. O vestíbulo está totalmente fechado. Os móveis são ingleses. Poltronas, mesas de acaju escuro. Há muitas flores abrigadas naquela calma, protegidas do barulho e do vento. Ele pode imaginar o cheiro das flores fechadas, o de um calor solar agora enregelado.
 Atrás dos vidros das sacadas, no mesmo silêncio, o céu em movimento, o mar.
 Ele a deseja, ela, a mulher do café à beira-mar. Não a beijou depois da outra noite. Aquele beijo de suas bocas disseminou-se por todo seu corpo. Está inteiramente retido nele, como um segredo inteiro, uma felicidade que é preciso sacrificar por medo, medo de que possa progredir. É a ideia desse beijo que o leva à ideia da morte. Poderia abrir o vestíbulo e morrer ali, de alguma maneira, ou dormir na tepidez da estufa.

 Quando volta ela está ali, em seu lugar, deitada.
 Olha-o sem ver, olhos vazios. Está possuída por uma cólera que ele desconhece, surda, má. Diz:
 - Você gostaria de dispor da ideia de Deus como faria com uma mercadoria, disseminá-la, vociferante e velha, como se Deus necessitasse de seus serviços.
 Ele não responde. É um homem que não responde.
 Ela continua: Quando você chora, chora por não poder impor Deus. Por não poder roubar Deus e dispensá-lo.
 A cólera desaparece, a mentira. Ela se deita, cobre o corpo com os lençóis e o rosto com a seda preta. Chora sob a seda preta. Diz, chorando:
 - É verdade, você também nunca fala de Deus. Diz: Deus é aquela lei, sempiterna e onipresente, não vale a pena ir procurá-lo durante a noite para os lados do mar.
 Chora. É um estágio da dor, profundo e desencorajado, que não faz sofrer, que se chora mais do que se expressa, que pode acompanhar uma certa felicidade. E do qual ele sabe, ele, jamais poder acercar-se.

 Ela o acorda.
 Diz que está enlouquecendo.
 Diz: Você dormia, tudo estava calmo. Olhei seu rosto e o que acontecia enquanto você dormia. Vi que ia de pavor em pavor ao longo da noite.
Fala com os olhos voltados para a parede. Não se dirige a ele. Junto dele, está fora de sua presença. Diz: De repente, no tecido do universo, no lugar da pequena extensão de seu rosto, aconteceu um súbito enfraquecimento da trama, muito pequeno, apenas o rasgar de uma unha em um fio de seda. Diz que sua loucura talvez venha de, na outra noite, enquanto ele dormia, ter percebido - simultaneamente à diferença de finalidade entre o rosto e o todo do universo - a identidade da sorte que lhes estava reservada, isto é, que juntos eram arrastados e triturados da mesma maneira pelo movimento do tempo, até que a trama lisa do universo fosse novamente recuperada.
 Mas sem dúvida está enganada, não sabe mais do que fala quando fala dele, do sentimento que tem por ele. A única coisa de que tem certeza é de que é preciso ter cautela durante as horas que precedem o nascer do sol, depois das últimas caminhadas, quando a noite é negra.