quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Mulher no meio do campo

mulher de vestido vermelho
vermelho
vermelho mesmo que dói
que eu vejo ao longe
no meio do campo

imagino tanta coisa

você cortou cana na roça
carregou o feixe na cabeça
encostou a cana na casa de ripas
e ficou de mãos na cintura
imaginando também
parada
olhando
olhando
aquele mundo ao redor

o sol
evaporando a água
a terra
tão quente
que estala de seca

foi tudo que vi
do trem
                   quando passava
o mais
não sei

mas imagino muita coisa
de seu vestido vermelho
da sua moleza
de mãos na cadeira
cuspindo de esguicho

se eu passasse
todos os dias
com o trem
saberia toda a sua vida
os seus segredos
são comuns com a natureza
dependem do sol e da chuva
do frio e do quente
caminham com eles
combinam

se o trem parasse

quem sabe
hein
quanta coisa
iria saber
daquele vermelho berrante
que vai ficando pra trás
pequeno
pequeno
um ponto luminoso
na paisagem rápida
que foge do trem

Mário Peixoto
no livro Mundéu

Ma Bohème

Do olho-músculo
amatório, daqui
falas, daqui
chamas - 


ao vagido da boceta, bocaberta
ar-, arfante ante a TV vulgar,
descer,
ao sangue sem sacrifício,
à jugular ardente da pantera num táxi
desces,
à jungle brilhante das boates,
às florestas de ácido e acrílico
desces,
           desces
ao dragão de veias entupidas
no toalete, à girl de gengiva vermelha,
à gente fedendo a dinheiro
no saguão flutuante de negócios,
à boca de fumo e riso, às coxas
que no agora infraeterno te entretêm,
ao ladrilho fosfóreo onde rolam glóbulos
brancos e verdes
à poça verde
sorriso verde
(EXIT no luminoso verde,
que lês:
Au Cabaret-Vert!)
e além
e desces ainda
até àquela palavra afta
(em Desires) fotografada por Banuyoshi Araki

e tornas

ao olho, músculo amatório,
                                           de onde falas
                                           de onde chamas.

Age de Carvalho
no livro Caveira 41