sexta-feira, 20 de março de 2015

Colagem III - O Quarto

Aqui meus crimes não seriam de amor.

Ana Cristina César

há naquela casa um quarto
e talvez ainda a cama
em que você morreu
trezentas vezes
raízes brotavam do teu corpo
e invadiam a tarde: nunca
o tempo foi tão fundo
na sombra de um vivente
o gozo o parto a morte
entre as mesmas margens:
dobras de um lençol em branco
que teu corpo descrevia
a tarde agora é outra: mora
outro tempo no teu tempo:
o que ficou de ti foi essa sombra
que fala entre outras mil paredes
Carlos Moreira

neste mesmo quarto
há muito tempo
você me ensinou
novamente a nudez
e então chamamos isso de amor
mas era exagero

Ana Martins Marques


sábado, 7 de março de 2015

Pequena compilação de informações sobre o corpo feminino

1. Uma vagina saudável tem PH ácido. Tem um cheirinho e gosto mais ácido. Vagina tem odor. Vagina sem odor não existe!

2. Todas as vulvas são diferentes. Vulva é a parte externa do orgão, onde ficam os grandes e pequenos lábios. A vulva de praticamente NENHUMA mulher, pra não dizer de nenhuma, tem lábios minúsculos perfeitamente simétricos. Lábios desenvolvidos são características de todas mulheres adultas, você não precisa ter vergonha dos seus.

3. Além de lábios vaginais desenvolvidos toda mulher adulta tem pelos. Pelos nas pernas, pelos nas axilas, pelos pubianos, pelos ou penugem nos mamilos, pelos ou penugem no rosto. Quem não tem pelos são crianças. Vou repetir porque tem muita gente que ainda fica espantado com isso: mulheres adultas tem pelos. Superem!

4. Pelos não são nojentos nem anti-higiênicos. Eles tem diversas funções como proteção física e proteção térmica. Se algo é anti-higiênico é a depilação. Na depilação (seja com cera ou gilete) você está agredindo a pele, causando micro lesões. Não é atoa que dói, não é atoa que fica inchado, vermelho e muitas vezes sangra. Quando você se depila você fica mais vulnerável a doenças e infecções, tanto por retirar o pelo que é uma proteção, quanto por machucar a pele e deixar ela mais sensível. Depilação também pode alterar a sua flora vaginal, que é composta por diversas bactérias que trabalham afim de manter a região sadia. Com a depilação também você corre o risco de alergias na pele e encravamento de pelos, que podem infeccionar.

5. É normal você ter um seio maior que o outro. Assim como existem vários tipos de vulvas existem vários tipos de seios.

6. Toda mulher tem secreção vaginal. Toda. Isso é normal. Sua calcinha molhar\manchar de secreção é normal. E de novo não tem nada de nojento ou anti-higienico nisso. A secreção saudável tem o cheirinho ácido típico da vagina e é transparente\esbranquiçado. De acordo com a transparência e liquidez do seu muco vaginal você pode inclusive ter uma noção se está fértil ou não.

7. Os fabricantes de calcinha não entendem a anatomia feminina. A calcinha tem uma parte de algodão que é um reforço (justamente porque temos estas secreções naturais). Acontece que pra maioria das mulheres esse reforço está no lugar errado e a secreção acaba manchando outras partes da calcinha, e é um saco.

8. Mulheres tem celulite. 99% das mulheres tem celulite. Celulite não é uma doença. Celulite não causa problemas pra saúde. Não existe nenhuma razão a não ser o encaixe no padrão estético pra querer se livrar dela e a chance de você conseguir fazer isso totalmente é muito pequena e você vai acabar gastando muito dinheiro tentando. O único problema é a celulite bacteriana que causa inchaço, dor e vermelhidão devido a uma infecção por uma bactéria ou fungo que entra por algum corte, picada ou abertura na pele.

9. Mulheres tem poros. Aquela pele de photoshop? Não existe. Poros também não são um problema de saúde e sim uma questão estética. Tampar os poros com maquiagem porém pode causar problemas.

10. Mulheres envelhecem. Envelhecimento também não é doença, é um processo natural pelo qual todos os seres vivos passam. Marcas de expressão facial também não são doenças e ocorrem porque bem, as mulheres se expressam (quer dizer, já li reportagem de uma mulher que nunca sorria pra evitar ficar com rosto marcado...). Mas não tem nada pra ser "tratado" ou evitado aí.

11. Você pode achar que o clitóris é pequeno, mas na verdade ele se extende pela parte interna, tendo em média 9 centímetros. Para saber mais sobre o clitóris: https://www.youtube.com/watch?v=Wmcu2mYZdRY

12. A vulva, assim como o pênis, aumenta de tamanho quando excitada, pelo aumento de fluxo sanguíneo.

13. A candidíase, doença genital que pode ocorrer nos homens e nas mulheres, não é necessariamente uma DST, sendo causada pelo aumento de quantidade de um fungo que temos naturalmente. Esse aumento pode ocorrer por vários motivos como por exemplo o uso de anti-bióticos por tempo prolongado e baixa imunidade.

14. Mulheres, assim como os homens, podem expelir uma grande quantidade de líquido durante o sexo. Não é xixi amiga e não tem nada de errado!

15. Os orifícios da vagina e da uretra (por onde sai o xixi) são diferentes. A uretra não deve ser penetrada.

16. Flatos (ou "puns") vaginais são normais. Podem ocorrer durante o sexo ou em intenso exercício físico, e é causado pela entrada de ar na vagina.

17. Sentir dor durante o sexo não é normal. Mulheres não são bonecas infláveis, não ficam confortáveis em todas as posições e não são obrigadas a sentir dor porque para o outro está sendo agradável. Se determinada posição é desconfortável pra você: Não faça! Se penetração ou determinados tipos de penetração forem desconfortáveis pra você: não faça! Sexo não é só penetração, diferente do que a maioria dos homens acha e nos tenta fazer achar também. Se estiver sentindo dor ou se sentindo desconfortável informe para a pessoa e peça para ela parar. Se a pessoa não parar ou reclamar por você ter manifestado que não tá legal se manda, sai correndo de perto, vaza e depois conta pras amigas pra avisar porque ninguém merece gente sádica, sem empatia e que não enxerga a outra como ser humano.

18. Faça xixi depois de transar! Isso ajuda a prevenir infecções urinárias.

19. A vagina tem músculos, você pode fortalece-los fazendo exercícios como Kegel e Pompoarismo, que também ajudam a prevenir infecções urinárias e nos ajudam a conhecer e ter maior controle sobre essa parte do nosso corpo.

20. Ter a primeira relação sexual é uma coisa, ter o hímen rompido é outra. Você não "perde a virgindade" usando O.B ou Coletor Menstrual.

21. Não lave por dentro, não use ducha vaginal. Nosso corpo é muito inteligente e uma das funções das secreções vaginais já é limpar e retirar células mortas, lavar externamente é suficiente e dessa maneira você não vai perturbar sua flora vaginal. Você também não precisa daquele sabonete de 17 reais específico pra genitália feminina. Já conversei com ginecologistas e não tem nada melhor que um sabonete de glicerina sem cheiro (quanto menos coisas tiver no sabonete tipo corantes e tal, melhor!). Não use absorventes ou papel higiênico com cheiros ou aromatizantes. E também já conversei com ginecologistas e essa história de "protetor íntimo diário" é uma porcaria, abafa sua pepeca e pode dar problemas, é cilada, não usa todo dia não mulher! E sempre dê preferência pras calcinhas de algodão.

https://www.facebook.com/notes/861824740525807/?pnref=story

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Idade

Mente o tempo:
a idade que tenho
só se mede por infinitos.
Pois eu não vivo por extenso.
Apenas fui a Vida
em relampejo do incenso.
Quando me acendi
foi nas abreviaturas do imenso.
Mia Couto
No livro “Vagas e lumes”

sábado, 7 de fevereiro de 2015

ah por que não me colocaram uma crosta calosa, ao invés da carne uma matéria de fibras muito duras, e esticadas e tesas, essas cordas do arco, justapostas, ligadas, Jonathas e David fundidos, cordas de outra carne, massa imbatível e viva sobre Hillé, iria suportar a caduquice do mundo, o soco, a selvageria, a bestialidade do século, a fetidez da terra, iria suportar até, com Jonathas e David fundidos sobre a carne, as retinas cruas, as córneas espelhadas, as mil perguntas mortas. Iria? suportaria guardar no peito esse reservatório de dejetos, estanque, gelatinoso, esse caminhar nítido para a morte, o vaidoso gesto sempre suspenso em ânsia para te alcançar, Menino-Porco? Suportaria o estar viva, recortada, um contorno incompreensível repetindo a cada dia passos, palavras, o olho sobre os livros, inúmeras verdades lançadas à privada, e mentiras imundas exibidas como verdades, e aparências do nada, repetições estéreis, farsas, o dia a dia do homem do meu século? e apesar dessa poeira de pó, de toda cegueira, do aborto dos dias, da não luz dentro da minha matéria, a imensa insuportável funda nostalgia de ter amado o gozo, a terra, a carne do outro, os pelos, o sal, o barco que me conduzia, umas manhãs de quietude e de conhecimento, umas tardes-amora brevíssimas espirrando sucos pela cara, rosada cara de juventude e vivez, e uma outra cara de mansa maturidade, absorvendo o que via, lenta, os ouvidos ouvindo sem ressentimento

Hilda Hilst
no livro A Obscena Senhora D, pgs 33/34

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Ideia do amor

 Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente - tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

Giorgio Agamben,
no livro Ideia da Prosa
E quando meu cansaço cair de cansaço
Daí vou saber se era mesmo você
Se era tarde ou tempestade que passou sem ver
Sem nem dizer se ainda vai voltar...

https://www.youtube.com/watch?v=mo67A77-XWU

31/01/2015

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Trecho "Olhos azuis, cabelos pretos"

 O beijo se transformou em gozo. Aconteceu. Brincou com a morte, com o horror da ideia. Não foi seguido por nenhum outro beijo. Ocupa inteiramente o desejo, é seu próprio deserto e sua imensidão, seu espírito e seu corpo.

 Ela está na poça branca dos lençóis ao alcance de sua mão, o rosto descoberto. O beijo torna seus corpos mais próximos do que a nudez, o quarto.
 Pronto, ela desperta. Diz:
 - Você estava aqui.
 Ela olha em torno dele, o quarto, a porta, seu rosto, seu corpo.
 Pergunta se pensou outra vez em matá-la esta noite. Ele responde:
 - O pensamento novamente me ocorreu, mas como aquele de amar.
 Do beijo, não falarão.

 Ela está no primeiro sono.
 Ele sai, vai em direção inversa aos rochedos, ao longo dos grandes hotéis que margeiam a praia.
 Nunca mais voltara ali. Sem dúvida com receio de ser reconhecido por testemunhas como o verdadeiro autor de um escândalo - ele agora acredita - que acontecera ali naquela noite de verão. Encontra o lugar onde ficara perto da janela aberta em frente à do jovem estrangeiro de olhos azuis cabelos pretos. O vestíbulo está totalmente fechado. Os móveis são ingleses. Poltronas, mesas de acaju escuro. Há muitas flores abrigadas naquela calma, protegidas do barulho e do vento. Ele pode imaginar o cheiro das flores fechadas, o de um calor solar agora enregelado.
 Atrás dos vidros das sacadas, no mesmo silêncio, o céu em movimento, o mar.
 Ele a deseja, ela, a mulher do café à beira-mar. Não a beijou depois da outra noite. Aquele beijo de suas bocas disseminou-se por todo seu corpo. Está inteiramente retido nele, como um segredo inteiro, uma felicidade que é preciso sacrificar por medo, medo de que possa progredir. É a ideia desse beijo que o leva à ideia da morte. Poderia abrir o vestíbulo e morrer ali, de alguma maneira, ou dormir na tepidez da estufa.

 Quando volta ela está ali, em seu lugar, deitada.
 Olha-o sem ver, olhos vazios. Está possuída por uma cólera que ele desconhece, surda, má. Diz:
 - Você gostaria de dispor da ideia de Deus como faria com uma mercadoria, disseminá-la, vociferante e velha, como se Deus necessitasse de seus serviços.
 Ele não responde. É um homem que não responde.
 Ela continua: Quando você chora, chora por não poder impor Deus. Por não poder roubar Deus e dispensá-lo.
 A cólera desaparece, a mentira. Ela se deita, cobre o corpo com os lençóis e o rosto com a seda preta. Chora sob a seda preta. Diz, chorando:
 - É verdade, você também nunca fala de Deus. Diz: Deus é aquela lei, sempiterna e onipresente, não vale a pena ir procurá-lo durante a noite para os lados do mar.
 Chora. É um estágio da dor, profundo e desencorajado, que não faz sofrer, que se chora mais do que se expressa, que pode acompanhar uma certa felicidade. E do qual ele sabe, ele, jamais poder acercar-se.

 Ela o acorda.
 Diz que está enlouquecendo.
 Diz: Você dormia, tudo estava calmo. Olhei seu rosto e o que acontecia enquanto você dormia. Vi que ia de pavor em pavor ao longo da noite.
Fala com os olhos voltados para a parede. Não se dirige a ele. Junto dele, está fora de sua presença. Diz: De repente, no tecido do universo, no lugar da pequena extensão de seu rosto, aconteceu um súbito enfraquecimento da trama, muito pequeno, apenas o rasgar de uma unha em um fio de seda. Diz que sua loucura talvez venha de, na outra noite, enquanto ele dormia, ter percebido - simultaneamente à diferença de finalidade entre o rosto e o todo do universo - a identidade da sorte que lhes estava reservada, isto é, que juntos eram arrastados e triturados da mesma maneira pelo movimento do tempo, até que a trama lisa do universo fosse novamente recuperada.
 Mas sem dúvida está enganada, não sabe mais do que fala quando fala dele, do sentimento que tem por ele. A única coisa de que tem certeza é de que é preciso ter cautela durante as horas que precedem o nascer do sol, depois das últimas caminhadas, quando a noite é negra.