quarta-feira, 15 de abril de 2015

A Nair e Zaél Abreu

São Paulo, 12 de agosto de 1987

Querida mãe, querido pai,
 não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos - quase 40 - anos. Devo estar acostumado.
 Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês - que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio - que é tão ou mais delicado.
 Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como "eu gosto de você". Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida - como quem olha de uma janela - mas não consegue vivê-la.
 Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco - todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado - nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto. Amo vocês, seu filho
                                                           
                                                                                                                                              Caio

Caio Fernando Abreu
(A EPOPÉIA DO AMOR COMEÇA NA CAMA COM OS LENÇÓIS
        DESARRUMADOS FEITO UM CAMPO DE BATALHA)
   é ali que eu começo a nascer para a madrugada & suas
           vertigens onde você meu amor se enrosca em em
meu coração paranóico de veludo verde & as delícias de continentes
alaranjados dormem em seu rosto de pérolas turvas oh tambores do amor
            sem parar rumo às tempestades PLANETÁRIAS & suas
    cachoeiras tristes & pesadas como lágrimas
                gosto de gostar & a tv da alma amanhece bêbada & tenta
                                     dizer alguma coisa

Roberto Piva
no livro Abra os olhos & diga Ah!
(A POLÍTICA DO CORPO EM FOGO DO CORPO EM CHAMAS
  DO CORPO EM FOGO) APAGANDO A LUZ as trevas devoram
            teu corpo em chamas tua boca aberta teu suicídio
   de prazer na grama tuas mãos colhendo meu rosto
   de folhas machucadas na escuridão teu gemido à sombra
                das cuequinhas em flor
                          teus cabelos são solidamente negros

Roberto Piva
no livro Abra os olhos & diga Ah!

terça-feira, 14 de abril de 2015

quem soa não sou eu: é a palavra:
pedra áspera ou faca amolada
é ela quem fala
eu e tu somos no máximo a corda
mais ou menos tensa de uma harpa
ou bandolim de lata
tanto faz: é ela quem sabe a hora
e a forma absurda de tirar a nota
e estuprar o anjo
ninguém é poeta: somos o sonho
da palavra (arquetípico demônio):
eis o humano
Carlos Moreira

Sobre a arte de ser um fantasma

os que vierem (se vierem
não saberemos: o que portanto
é irrelevante) depois de nós
os que nascerem em outro
mundo daqui a duzentos
bilhões de anos e anos-luz
não verão mais as estrelas:
a linha dágua do universo
terá expandido tanto
que as galáxias brilharão
para ninguém: distantes
e inúteis olhos sem espelhos
navegarão sem tramontana
não saberão que surfamos
a explosão na sua onda
que amamos destruímos
escrevemos calculamos
o início luminoso da viagem
:
meu filho de repente
olha o céu a mim sorri:
que sorte nascermos agora e aqui
e eu digo: Sim
Carlos Moreira
inexorável a gravidade
entre as tuas cartilagens
inexorável o silêncio
daquilo que não dirás
porque não há a quem
inexorável o medo
de uma noite enorme
em tua mão fechada
e a sombra que escorre
por baixo da porta
inexorável o sorriso no retrato
mesmo que falso e cotidiano
inexorável a tua morte anunciada
a tua morte antecipada
pelo viés do tédio
inexorável o tempo
que levaste descobrindo o mundo
e o mundo é isso mesmo
inexorável teu próprio medo
teu medo tétrico
de voltar pra casa
inexorável tua vida inteira
tua língua teu corpo
tua palavra
um pouco além de nós
gargalha e cala
algum demônio
Carlos Moreira
: muito cedo ou tarde agora
para a corda no pescoço
para a hora do disparo
para pôr a alma fora
para a festa que acabou
e nem era madrugada
para a bala além do corpo
para o morto na calçada
e sua sombra que se move
para sempre além da escada
: não meter a mão no medo
nem a faca na garganta
existir além do muro
mesmo sendo a pedra dentro
mesmo estando tão por fora
quanto a fome além da fera
quanto o tempo de outro tempo
: e por ser assim excêntrico
(só por ser assim excêntrico)
pôr a roda em movimento
*
Carlos Moreira