São Paulo, 12 de agosto de 1987
Querida mãe, querido pai,
não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos - quase 40 - anos. Devo estar acostumado.
Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês - que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio - que é tão ou mais delicado.
Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como "eu gosto de você". Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida - como quem olha de uma janela - mas não consegue vivê-la.
Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco - todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado - nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto. Amo vocês, seu filho
Caio
Caio Fernando Abreu
quarta-feira, 15 de abril de 2015
A Nair e Zaél Abreu
(A EPOPÉIA DO AMOR COMEÇA NA CAMA COM OS LENÇÓIS
DESARRUMADOS FEITO UM CAMPO DE BATALHA)
é ali que eu começo a nascer para a madrugada & suas
vertigens onde você meu amor se enrosca em em
meu coração paranóico de veludo verde & as delícias de continentes
alaranjados dormem em seu rosto de pérolas turvas oh tambores do amor
sem parar rumo às tempestades PLANETÁRIAS & suas
cachoeiras tristes & pesadas como lágrimas
gosto de gostar & a tv da alma amanhece bêbada & tenta
dizer alguma coisa
Roberto Piva
no livro Abra os olhos & diga Ah!
DESARRUMADOS FEITO UM CAMPO DE BATALHA)
é ali que eu começo a nascer para a madrugada & suas
vertigens onde você meu amor se enrosca em em
meu coração paranóico de veludo verde & as delícias de continentes
alaranjados dormem em seu rosto de pérolas turvas oh tambores do amor
sem parar rumo às tempestades PLANETÁRIAS & suas
cachoeiras tristes & pesadas como lágrimas
gosto de gostar & a tv da alma amanhece bêbada & tenta
dizer alguma coisa
Roberto Piva
no livro Abra os olhos & diga Ah!
(A POLÍTICA DO CORPO EM FOGO DO CORPO EM CHAMAS
DO CORPO EM FOGO) APAGANDO A LUZ as trevas devoram
teu corpo em chamas tua boca aberta teu suicídio
de prazer na grama tuas mãos colhendo meu rosto
de folhas machucadas na escuridão teu gemido à sombra
das cuequinhas em flor
teus cabelos são solidamente negros
Roberto Piva
no livro Abra os olhos & diga Ah!
DO CORPO EM FOGO) APAGANDO A LUZ as trevas devoram
teu corpo em chamas tua boca aberta teu suicídio
de prazer na grama tuas mãos colhendo meu rosto
de folhas machucadas na escuridão teu gemido à sombra
das cuequinhas em flor
teus cabelos são solidamente negros
Roberto Piva
no livro Abra os olhos & diga Ah!
terça-feira, 14 de abril de 2015
quem soa não sou eu: é a palavra:
pedra áspera ou faca amolada
é ela quem fala
pedra áspera ou faca amolada
é ela quem fala
eu e tu somos no máximo a corda
mais ou menos tensa de uma harpa
ou bandolim de lata
mais ou menos tensa de uma harpa
ou bandolim de lata
tanto faz: é ela quem sabe a hora
e a forma absurda de tirar a nota
e estuprar o anjo
e a forma absurda de tirar a nota
e estuprar o anjo
ninguém é poeta: somos o sonho
da palavra (arquetípico demônio):
eis o humano
da palavra (arquetípico demônio):
eis o humano
Carlos Moreira
Sobre a arte de ser um fantasma
os que vierem (se vierem
não saberemos: o que portanto
é irrelevante) depois de nós
não saberemos: o que portanto
é irrelevante) depois de nós
os que nascerem em outro
mundo daqui a duzentos
bilhões de anos e anos-luz
mundo daqui a duzentos
bilhões de anos e anos-luz
não verão mais as estrelas:
a linha dágua do universo
terá expandido tanto
a linha dágua do universo
terá expandido tanto
que as galáxias brilharão
para ninguém: distantes
e inúteis olhos sem espelhos
para ninguém: distantes
e inúteis olhos sem espelhos
navegarão sem tramontana
não saberão que surfamos
a explosão na sua onda
não saberão que surfamos
a explosão na sua onda
que amamos destruímos
escrevemos calculamos
o início luminoso da viagem
:
meu filho de repente
olha o céu a mim sorri:
que sorte nascermos agora e aqui
escrevemos calculamos
o início luminoso da viagem
:
meu filho de repente
olha o céu a mim sorri:
que sorte nascermos agora e aqui
e eu digo: Sim
Carlos Moreira
inexorável a gravidade
entre as tuas cartilagens
entre as tuas cartilagens
inexorável o silêncio
daquilo que não dirás
porque não há a quem
daquilo que não dirás
porque não há a quem
inexorável o medo
de uma noite enorme
em tua mão fechada
de uma noite enorme
em tua mão fechada
e a sombra que escorre
por baixo da porta
por baixo da porta
inexorável o sorriso no retrato
mesmo que falso e cotidiano
mesmo que falso e cotidiano
inexorável a tua morte anunciada
a tua morte antecipada
pelo viés do tédio
a tua morte antecipada
pelo viés do tédio
inexorável o tempo
que levaste descobrindo o mundo
e o mundo é isso mesmo
que levaste descobrindo o mundo
e o mundo é isso mesmo
inexorável teu próprio medo
teu medo tétrico
de voltar pra casa
teu medo tétrico
de voltar pra casa
inexorável tua vida inteira
tua língua teu corpo
tua palavra
tua língua teu corpo
tua palavra
um pouco além de nós
gargalha e cala
algum demônio
gargalha e cala
algum demônio
Carlos Moreira
: muito cedo ou tarde agora
para a corda no pescoço
para a corda no pescoço
para a hora do disparo
para pôr a alma fora
para pôr a alma fora
para a festa que acabou
e nem era madrugada
e nem era madrugada
para a bala além do corpo
para o morto na calçada
para o morto na calçada
e sua sombra que se move
para sempre além da escada
para sempre além da escada
: não meter a mão no medo
nem a faca na garganta
nem a faca na garganta
existir além do muro
mesmo sendo a pedra dentro
mesmo sendo a pedra dentro
mesmo estando tão por fora
quanto a fome além da fera
quanto a fome além da fera
quanto o tempo de outro tempo
: e por ser assim excêntrico
: e por ser assim excêntrico
(só por ser assim excêntrico)
pôr a roda em movimento
pôr a roda em movimento
*
Carlos Moreira
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