sexta-feira, 31 de julho de 2015

 Em toda minha vida jamais deitei com a beleza
               confidenciando a mim mesmo
                                                               seus encantos exuberantes
Jamais deitei com a beleza em toda minha vida
                                                                     e tampouco menti junto a ela
                      confidenciando a mim mesmo
                                                         como a beleza jamais morre
                      mas jaz afastada
                                          entre os aborígenes
                                                                     da arte
                      e paira muito acima dos campos de batalhas
                                                                                       do amor
                Ela está acima disto tudo
                                                      oh sim
      Está sentada no mais seleto dos
                                                        bancos do templo
   lá onde os diretores de arte encontram-se
para escolher o que há de ficar eterno
                                                           E eles sim deitaram-se com a beleza
                              suas vidas inteiras
                                                           E deliciaram-se com ambrosia
       e sorveram os vinhos do paraíso
                                                           Portanto sabem com precisão
   como algo belo é uma jóia
             rara rara
                           e como nunca nunca
                poderá desvanecer-se
                                         num investimento sem tostão
      Oh não jamais deitei
                                 em Regaços da Beleza como esses
    receoso de levantar-me à noite
                                             com medo de perder alguma forma
algum movimento que a beleza pudesse esboçar
          No entanto dormi com a beleza
                                               da minha própria e bizarra maneira
     e aprontei uma ou duas cenas muito loucas
                                                                  com a beleza em minha cama
       e daí transbordou um poema ou dois
        e daí transbordou um poema ou dois
                                               para esse mundo que parece o de Bosch

Lawrence Ferlinghetti
no livro Um parque de diversões da cabeça
                       

terça-feira, 14 de julho de 2015

Eternidade

Ele reviu-se:
não era mais
nem corpo
nem sombra
nem escombros.
Como foi isso?
Tudo irreal:
um barco
sem mar
a boiar.
Ele sentiu-se:
recomeçava.
Vivera
morrendo
numa estrela.
Ele despiu-se
de quê?
De tudo
que amara.
Surdo-mudo
cegara.
Agora vê.
Jorge de Lima

segunda-feira, 6 de julho de 2015

valquírias

viverei mil anos na galícia de tuas coxas,
teu pólen serão as ilhas onde descansarei
os navios apedrejados de minha esperança.

nos teus olhos, um enjambement de lírios,
nos teus quadris, minha galáxia herdada.

não falemos, então, nada além dos olhos,
firmarei em teus olhos minha vaga nação.

em sarabandas lunares repaginar carícias,
virar do avesso a ruína do segundo parto.

dentro de ti serei sempre o pastor anfíbio
e a violência explodirá em sutis enxadas,
enxadas e pisadas sobre nuvens velozes
e já não estaremos mais entre os mortos.

pelo instante em que tocarmos as pontas
do nosso milagre comum, afirmaremos
a comunhão das espécies e o sono do fim.

Leonardo Marona,
no livro "óleo das horas dormidas"

bravata

eu sei, meu amor, que contigo aqui no meu colo,
tuas pernas duras, eu não preciso de mais nada,
e eu sei, meu amor, eu sei, todos nós sabemos,
que você está certa, eu sempre sonhei com um amor
que, como você, pudesse me ver escrevendo,
trabalhando no que mais amo e não trocaria nunca,
e eu sei, mamacita, dizemos sempre, ou tentamos,
coisas doces um ao outro, dessas de seguir vivendo,
mas acontece, meu amor, que eu preciso morrer,
eu preciso morrer horrivelmente, vergonhosamente,
eu preciso morrer como morreram meus heróis,
eu preciso morrer numa estrada para o méxico,
eu preciso morrer de tifo, de sífilis, de paixões abissínias,
eu preciso morrer sem deixar nada além de um prêmio nobel
e comentários inteligentes de homens já sem próstata,
enquanto, nos jornais, eles dirão: grande escritor, abençoado
com a capacidade de narras as questões medulares da raça humana,
morre de forma chocante, paródica, um tiro de espingarda na boca,
e isso não será de todo feio, minha paixão, eu espero
que você me entenda, eu não preciso de cura ou benção,
estou abençoado pelas caronas nos trens de carga,
quero estar tremendo um dia, numa estrada de neve,
quero saber quem é quem nesse dia, por essa estrada,
e, sabendo quem é quem, quero tremer de medo, pensar:
vergonha por tudo que pensei ter feito, e sentar,
tocar uma bela punheta no meio do mato e sorrir
com os mesmos velhos dentes dos quais um dia disseram:
um belo sorriso, rapaz intrigante, a febre da raposa,
e quero morrer fulminantemente neste dia, no meio da neve,
mas agora você me dá seus pés, você deita seus pés no meu colo
enquanto escuto higway 61 e isso é tão bom quanto uma bravata,
mas talvez não tanto quanto esta porque, meu amor, eu farei.

Leonardo Marona,
no livro "óleo das horas dormidas"

tudo é concha

quem acha sem procurar é quem
longamente buscou sem encontrar
(gaston bachelard)

viramos a curva agora e não há lenço
na despedida do que se arrasta conosco,
mas são pedaços tristes de um vietnã
retido em cada célula mas então adeus,
madrugadas com o coração em chamas
nos postos de gasolina de meus anos,
adeus sem pressa, mas por fim adeus,
cúpula tensa de cataclismos telúricos,
chave de braço do perdão e olho roxo,
ronco suave da droga no embalo mítico,
tudo é concha na mandíbula do soalho,
susto cardíaco do amor, suor das veias,
reclame em perdigotos ao céu da fuga,
tempo sem tempo em que o tempo vive
agora afogado na ampulheta do manejo,
rastro sem bicho do que caíram órgãos,
rumor de cimento nos poros da beleza,
azuis as fadas azul a tristeza azul o nada,
agora apenas amarelas as folhas mortas,
velho para a música e novo para calçar
os sapatos que nos cospem és um adulto,
portanto adeus ao que nem lembro e sou,
essa matéria que engole e cospe e somos
o que nos resta dela em cílios trêmulos e
bocas tortas para baixo num cerne rude,
agora já viramos a curva e não há lenço
nos narizes de antigas e dolorosas ninfas,
é passar ao largo e engolir o verde musgo
da vida ainda líquida da primeira latência,
agora que lembrar é o crime da memória
e despedir-se é lançar através da vidraça
os corpos perdidos que um dia pensamos:
têm frio mas, apesar de tudo, veem a luz,
verde entranha tracejada de escuro cínico.

Leonardo Marona,
no livro "óleo das horas dormidas"

cair de amor

é preciso cair de amor,
é preciso, é mais que tempo,
que seja uma terrível queda,
uma intolerável queda de amor.
quando me olho no espelho,
quando fecho ou tiro o cinto,
quando compro bússolas,
quando observo as vitrinas,
quando faço mal a barba
ou não faço a barba por semanas,
quando vejo um gato na chuva
ou me envergonho se karen dalton
enruga meu ventre com microtons,
quando eu me virar assustado,
eu sei, é preciso, não há mais
tempo para fugas, não tenho mais
muito da minha reserva pessoal
de amor e quando pisco nas ruas
ou visto minha nobre jaqueta emprestada
e me atribuo tapinhas de incentivo,
quando fumo como um detetive suíço
ou faço as vezes de comediante asmático,
não pode ser, inevitável, existe prazo
limite para tudo e agora, sim, agora
é mais que preciso cair de amor.
então não venha me falar quando
tivermos percorrido quilômetros
e na hora não soubermos dizer.
cair de amor, não existe a hora,
amor é o que faz cair e caído
permanece aos pés do que aos pés
é preciso cair, nas ruas, em postes,
nas filas dos desempregados,
nas blitz policiais e nos bálcãs,
mesmo em cemitérios é possível,
nas fases de luto ou sem sorte,
bater e cair, quando, suando,
estiverem ainda desempenhados
os pedaços da vertigem solene.

Leonardo Marona
no livro "óleo das horas dormidas"