domingo, 10 de janeiro de 2016

Me ama, não me ama

“Íntimo” é o superlativo latino de “interior”. Um superlativo é uma forma que manifesta a potência máxima de algo, e “interior”, proveniente do latim 'interior', significa “mais interior de…”. O íntimo é aquilo que é mais interior, mais profundo, e, portanto, mais secreto, mais reservado, aquilo que me pertence mais profundamente, de tal modo que pode ser meu sem que eu mesmo o saiba, sem que possa realmente explicá-lo.
Quando digo “te amo”, digo aquilo que há de mais íntimo para mim e para o outro, porque o envolvo em sua intimidade. Por isso, o tema é muito embaraçante, difícil de ser abordado. É até mesmo necessário perguntar-se se é possível falar dele, e a resposta não é previsível. Estou certo de que vocês ficam incomodados com a ideia de ver uma conferência sobre o amor. Há muitas formas de incômodo: talvez vocês tenham se perguntado, “mas como é possível falar do amor?” […]
Amo-o pouco, amo-o muito: já se sabe que isto não é amor. Se alguém lhe pergunta “me amas?” e você responde “sim, te amo muito”, então já está provocando uma desilusão. Com isso quero dizer que “te amo” é absoluto. Assim, temos que dizer “te amo” e ponto final. Não podemos quantificar. […]
***
Jean-Luc Nancy, Je t’aime, beaucoup, passionément… Paris: Bayard, 2008, pp. 16-17/23, tradução Davi Pessoa. Conferência dada por Nancy em Montreuil, em 2 de fevereiro de 2008.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Acordei no meio da noite suando em bicas. Tive um sonho que eu tava numa sala de cirurgia, aí vinha uma mulher vestida de médica, raspava meu cabelo todinho e eu ficava careca. Depois vinha outro médico e me perguntava se as dores de cabeça eram constantes e eu dizia que sim, aí ela perguntava em que região da cabeça, e eu apontava com o dedo no lugar. Aí ele abria minha cabeça, com o bisturi, e saía pedacinhos do teu corpo, de dentro da minha cabeça, galega. Porra, era tudo tão real, que eu acordei em pânico. Tentei deitar novamente mas não consegui. Sinto amores e ódios por você. Sinto amores e ódios repentinos por você. Essa viagem tá me levando pra trás, pro dia que você me deixou. Fico o tempo todo pensando em voltar e não tenho nem mais pr'onde voltar. Insuportável. Inventei até que a gente tava junto, que a gente nunca tinha se separado, e comecei a escrever cartas, e responder cartas que você nunca mandou. Fiz essa viagem pra tentar esquecer o pé na bunda que você me deu e só foi pior. Só faço lembrar, sem parar. Esse lugar tá virando um pesadelo. Pela primeira vez tenho vontade de largar tudo. Largar a viagem, meu emprego, meu trabalho de geólogo, e me perder num labirinto sem saída. 

Trecho do filme Viajo porque preciso, volto porque te amo
dirigido por Marcelo Gomes e Karim Ainouz

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

claro, ela nunca disse que estaria
ou que permaneceria depois
do dobrar das horas. não
minha senhora, no pouco tempo que ficou
constantemente me lembrou de que iria
não estar
ao fim de tudo. o absurdo que me soa
é que, ainda assim, permanecia
como quem não notasse ser
como quem não soubesse estar
presente inteira, mas sobretudo
como se não pudesse ver
que a vida era aquele segundo.


Leandro Durazzo
via Facebook

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

"today my professor told me
every cell in our entire body
is destroyed and replaced
every seven years.
how comforting it is to know
one day i will have a body
you will have never touched." 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

"o amor é paciente
o amor é gentil
suporta qualquer coisa
e tudo sabe
o amor nunca acaba
profecia - desapareceu
se as linguagens - mudas
sabedoria - nada
profecia - desapareceu
linguagens - mudas
e apenas fica
fé, esperança e amor
mas o maior desses três
é o amor"

a liberdade é azul
kieslowski

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Trecho de Manchas na pele, linguagem

Como todos os processos excessivamente contínuos, é preciso que nos lembremos do envelhecimento de um ponto de vista absolutamente exterior (em frases como "Não tenho idade para", "Naquela época" ou "Quando eu era menino") ou, ao contrário, de um interior imediato, muitas vezes corpóreo - na completa falta de ar após uma corrida, no rompimento estúpido de algum músculo. Mas é então, sob a sentença de um envelhecimento inevitável, que alguma coisa em mim parece querer, e poder, sobrevoar meu corpo, livrar-se dele - um misto de olhar para longe e respiração, um amálgama aflito de palavras, a melodia como porta ou túnel, o instante que cava minha pegada numa paisagem imensa. Mas esta alegria progressiva precisa de alimento constante e o próprio corpo, em sua casca, parece não resistir bem a ela, tornando-se inquieto, ofegante e, aos poucos, cansado e deprimido. Como um balão cujo gás vai escapando, a energia insana de nossa alegria física procura abrigo - nas imagens, nos braços de outra pessoa e, no limite, pois é a isto que sempre recorre, na linguagem. É ali que a tentamos prender, antes que o gás escape de uma vez e sejamos tão-somente os espectadores de nossa própria decrepitude, de nossa fusão indeterminada na matéria.

Chegamos então à beira do velho precipício - o entusiasmo das palavras vagas. É a este antigo último recurso que recorremos sempre - exclamações ou frases compulsivas que não conseguimos deixar de dizer. Talvez seja melhor tratar agora dessa estranha ferramenta, a linguagem, que me põe para fora do corpo - tentar apreendê-la, indeciso entre o mugido daquilo que vai sob a camisa e a fatuidade grandiosa de minhas frases. Sem conseguir escolher se a vida é benção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, órgãos entranhados na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem?

Como uma via intermediária, procuro entrar e permanecer no reino da pergunta - ou de uma explicação que não explica nunca. Assim, suspenso, murmuro um nome confuso a cada ser que chama minha atenção e toco com meu dedo a sua frágil solidez, fingindo que são homogêneos e contínuos. Posso, até mesmo, anotar em meu caderno características do que toco, como: "pinta-se de verde antes de reproduzir", "mostra extrema ansiedade antes do ocaso", ou "destila o breu dos carvalhos ao redor", mas não devo, em hipótese alguma, regredir à cadeia causal interminável, como um cachorro mordendo a cauda. Acabo por me conformar com uma vaga e humilde dispersão dos seres, fechados em seu desinteresse e incomunicabilidade de fundo, e como um modelo mal-ajustado ao modelo permaneço em meu torpor indagativo, deitado na relva, tentando unir pedaços de frases a pedaços de coisas vivas.

Nuno Ramos
no livro Ó

sábado, 1 de agosto de 2015

Conheça Miss Metrô

Conheça Miss Metrô
1957
Veja Miss Metrô
1957
rodando no trem da Times Square
pra lá e pra cá
às quatro da manhã

Conheça Miss Metrô
1957
Ela usa buchas de algodão do tamanho de moedas
socadas no nariz moreno achatado
transitando pra lá e pra cá
no trem da Times Square
às quatro da manhã
e circulando
entre os anéis de ferro do paraíso
com braços dourados retalhados
charuto negro em mão morena

Você pode encontrar Miss Metrô
Você pode ver Miss Metrô
1957
trajando trajes tristes
transando trastes transidos
circulando em transe pelo trânsito
com braços morenos fatigados
bituca negra em mão morena

E os carros de ferro
indo e vindo eternamente
rumo à morte e à escuridão
oh Ubangi perdido

Cambaleando entre
as "ogivas sucessivas" do Inferno
em direção à definitiva
escada de incêndio de Danta

Lawrence Ferlinghetti,
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça