quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Para o meu amante voltando para a esposa

Ela está bem aqui.
Ela foi cuidadosamente esculpida para você
saída de sua infância
saída dentre seus cem colegas de escola preferidos.
Ela sempre esteve aqui, meu bem.
Ela é de fato extraordinária.
Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro
e tão real como uma panela de ferro fundido.
Vamos ser sinceros, eu fui passageira.
Um artigo de luxo. Um veleiro vermelho-brilhante no cais.
Meu cabelo para fora da janela do carro, esvoaçante como fumaça.
Mariscos fora de época.
Ela é mais do que isso. Ela é o que você tem de ter,
ela semeou seu crescimento prático, tropical.
Ela não é uma experiência. Ela é toda harmonia.
Ela cuida para que no bote salva-vidas haja remos e ganchos,
coloca flores do campo na janela para o café-da-manhã,
ao meio-dia senta-se à roda do oleiro,
criou três filhos sob a lua,
três querubins desenhados por Michelangelo,
fez isso com as pernas abertas
nos terríveis meses na capela.
Se você olhar para cima, as crianças estão lá
como balões delicados que descansam no teto.
Ela também carregou cada uma pelo corredor
depois do jantar, suas cabeças inclinadas,
duas pernas protestando, íntimas, pessoa contra pessoa,
o rosto corado com uma canção e soninho.
Eu devolvo seu coração.
Eu dou meu consentimento –
para o detonador dentro dela, latejando
na lama com raiva, para a sua cadela interior
e o enterro das suas feridas –
para enterrar viva a ferida, pequena e vermelha –
para a pálida tremelicante labareda debaixo de suas costelas,
para o marinheiro bêbado que aguarda em seu pulso esquerdo,
para o joelho materno, para a meia,
para a cinta-liga, para a chamada –
a estranha chamada
você vai se esconder nos braços e nos seios
e puxar a fita cor de laranja do cabelo dela
e atender a chamada, a estranha chamada.
Ela é tão nua e única
Ela é a soma de você mesmo e o seu sonho.
Escale-a como um monumento, passo a passo.
Ela é sólida.
Quanto a mim, sou uma aquarela.
Eu evaporo.
Anne Sexton (tradução de Adelaide Ivanova)
publicado no Suplemento Pernambuco

a partilha

te escrevo do ônibus a raiva
dando lugar a um negócio
ainda sem nome comprei
cigarro em vez de água
com os zlótis que você me deu
hoje de manhã na cozinha
sem me olhar nos olhos eis
a lista das coisas que você me deixa:
aumento das chances de câncer
de pulmão e algum dinheiro
parte dos euros que ainda me deve

bebemos um nescafé escroto
passando os dedos na borda
da xícara sem dizer uma palavra
assombrados com o silêncio (mas
isso é erich kästner) tudo tão diferente
das infinitas calorosas conversas
daquelas do tipo que se muda
o que se pensa só um pouquinho
pra aumentar o teor de encanto

eu queria ter feito amor com você
como você diz ter feito com as outras
para mim só sobrou sua dívida
a partilha das neuroses das solidões
suas tristezas todas te escrevo
do ônibus partida ao meio
procuro você na estrada
porque sei que você vai de carona
até varsóvia quem sabe te vejo
anônima e masturbatória enquanto
você procura alguém com vida interna
morna o suficiente que neutralize
o fervor da sua (meu deus
onde estava eu com a cabeça?)

meu único arrependimento
é não ter te fotografado
enquanto tentávamos pegar
uma carona até o mar báltico
você na beira da estrada
sem camisa sob o sol
parecia deus.

Adelaide Ivanova,

em seu blog 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Como amar Tchekov

Amar este homem que vive longe
é como amar Anton Tchekov.
É verdade, eu amo Anton Tchekov,
amei-o muito antes de conhecer este homem.
Amo todas as caras de Anton Tchekov que tenho em minha coleção
de fotos que o mostram em diferentes anos de sua vida,
sozinho ou com irmãos e irmãs, com atores,
com Górki,
com Tolstói, com sua esposa, com seus indistinguíveis
e atraentes cães; do estudante sem barba até o homem
com pince-nez, famoso e aflito.
Não tenho nenhuma foto 
do homem que amo.

Amo Anton Tchekov por ter viajado sozinho
à prisão da ilha sem ter sido convocado.
por escrever sobre os gélidos, encarnados mares
ao redor da ilha e ao redor das vidas de sua gente
que “pareciam os pesadelos
de um menino pequeno que andou lendo
Lost in the Ocean Wastes
antes de ir dormir e sua coberta cai
e ele se encolhe tremendo
sem conseguir despertar.”

por ter valorizado tanto o feio tinteiro que lhe deu uma pobre costureira
como agradecimento por seu trabalho de médico.
Se há uma vida depois desta
espero ali conhecer Anton Tchekov.
Amar o homem que amo
é como isso, porque está longe,
e porque é escrupuloso e porque seguramente
nada do que diga pode me aborrecer.
Mas também é diferente. Tchekov já tinha morrido
muito antes de eu nascer. E este homem está vivo.
está vivo e não está comigo.
Este homem dividiu comigo uma cama, nossos corpos
roubaram calor um do outro e deram um ao outro
prazer, nossos corpos
se aborreceram com a gente por, depois de os entregarmos um ao outro,
termos deixado que algo que eles não entendem bem os separassem, uma cunha
cruel e metálica que eles nos ouvem chamar
Necessidade.

Parece irreal amar
um homem que vive tão longe, ou que só é real para a mente,
a mente molestando o corpo. Mas que é real,
está vivo e não é numa vida posterior a essa
que o quero ver
mas sim neste aqui e agora, antes que eu fique um mês mais velha,
antes que me surja entre os cabelos outro fio branco.
Se ele me faz pensar em Anton Tchekov não é porque
me lembre o mais minimamente Anton Tchekov, mas porque a dor
da distância entre mim e o homem vivo que conheço e não conheço
me agarra com dor e medo, uma dor e um medo
parecidos com o amor pelos mortos inalcançáveis.

Denise Levertov

sábado, 25 de junho de 2016

que venham os temporais
e as ondas erguendo as casas
misturando nuvens e mulheres
abrindo as pernas do deserto
jorrando manhãs e palavras
e silêncio por entre as palavras
que venham os bárbaros
e sua fome de vida sua fome
de fome de vida sua sede
de grandes ondas batendo
contra os joelhos do cais
venham os que não creem em ditadores
da terra e do céu porque o amor
e a loucura são siameses
e o tempo é uma máquina
de moer flores e pedras e
não temos tempo a perder
que venham as que tecem
as que destecem as que sabem
que não sabem e que é esse
seu grande luminoso
e humano poder
estaremos eu e tu
por debaixo das ondas
imóveis por dentro das ondas
e livres como o ar dentro
da jaula do tigre
estaremos em nossa ausência
e só então estaremos livres
do que seria a eternidade
Carlos Moreira

sábado, 16 de abril de 2016

Amor como em casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina

domingo, 10 de janeiro de 2016

QUATRO BOLEROS MAROQUEROS

1
Com as últimas chuvas você se foi
e então acreditei
que para a casa mais aborrecida do subúrbio
não haveria primaveras
nem outonos nem invernos nem verões

Mas não

As estações se cumpriram
como estavam previstas em qualquer almanaque
E a senhoria e o carteiro
não tornaram a perguntar
por você.

2
Para esquecer você para não vê-la
contemplo a viagem das moscas pelo ar
Grande Estilo
Grande Velocidade
Grande Altura.

3
Para esquecer você pego o primeiro trem e vou para o campo
Impossível
É que sua ausência
tem algo de Flora de Fauna de Piquenique.

4
Não aumentaram meu salário por sua ausência
e contudo
o pote de Nescafé dura o dobro
o triplo as lâminas de barbear.


Antonio Cisneros
Com passos de fantasma,subirei aquelas escadas
viscosas. Chegarei até você pelos degraus
sombrios, percorrendo andares de pedras desconexas
e lisas, depois farei ranger a fechadura
de sua porta, e meio
adormecida você dirá é só o vento, é um sonho.
Penetrarei em seu sonho, leve,
insidioso, enfiando
sempre mais profundamente o ferrão do terror,
mostrarei para você as toupeiras
de olhos mortos que no centro escuro
do eu cavam os fétidos
e impreenchíveis buracos sem saída,
claro, em você também, profundamente,
enquanto descansa: e naquele mistério
frágil entrarei com toda doçura,
angústia e amargura de meu amor.
Sairei do silêncio
pelo duplo silêncio de avenidas
lunares, ou irei esperar,
em fundos falsos de mala, pálido
pela madrugada, as nuances amargas de um despertar
que não dissipa – sombra espessa –
os porquês que você requer
da vida, do vento,
de minha ausência tão estranha, ou é um sonho.

Dario Villa
trad. davi pessoa
via Facebook