Roberto Bolaño
quinta-feira, 5 de abril de 2018
Musa
Roberto Bolaño
sexta-feira, 12 de maio de 2017
São Paulo e tudo mais
Totalmente sem graça e sorridente
eu entro
me sento e
encaro a geladeira
é abril
não maio
é maio
coisas tão pequenas precisam ser definidas pela manhã
depois das coisas grandes da noite
você quer que eu vá? quando
penso em tudo que tenho pensado fico maluco
apenas “viver em Birmingham é um inferno”
apenas “você vai sentir minha falta
mas isso é bom”
quando as lágrimas de toda uma geração forem reunidas
caberão todas numa xícara
e se elas evaporam
nem por isso a vida tem calor
“esse variado sonho, viver”
eu estou vivo com você
cheio de prazeres ansiosos e ansiedades prazerosas
dureza e maciez
ouvindo enquanto você fala e falando enquanto você lê
eu leio o que você lê
você não lê o que eu leio
e tudo bem, o curioso sou eu
você lê por alguma razão misteriosa
eu leio só porque sou escritor
o sol não necessariamente se põe, às vezes só desaparece
quando você não está aqui alguém entra e fala
“ei,
cadê o dançarino dessa cama?”
Ah os verões poloneses! aquelas brisas!
aqueles dentes pretos e brancos!
você nunca vem quando diz que vem por outro lado você vem sim
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
Mulher no meio do campo
vermelho
vermelho mesmo que dói
que eu vejo ao longe
no meio do campo
imagino tanta coisa
você cortou cana na roça
carregou o feixe na cabeça
encostou a cana na casa de ripas
e ficou de mãos na cintura
imaginando também
parada
olhando
olhando
aquele mundo ao redor
o sol
evaporando a água
a terra
tão quente
que estala de seca
foi tudo que vi
do trem
quando passava
o mais
não sei
mas imagino muita coisa
de seu vestido vermelho
da sua moleza
de mãos na cadeira
cuspindo de esguicho
se eu passasse
todos os dias
com o trem
saberia toda a sua vida
os seus segredos
são comuns com a natureza
dependem do sol e da chuva
do frio e do quente
caminham com eles
combinam
se o trem parasse
quem sabe
hein
quanta coisa
iria saber
daquele vermelho berrante
que vai ficando pra trás
pequeno
pequeno
um ponto luminoso
na paisagem rápida
que foge do trem
Mário Peixoto
no livro Mundéu
Ma Bohème
amatório, daqui
falas, daqui
chamas -
ao vagido da boceta, bocaberta
ar-, arfante ante a TV vulgar,
descer,
ao sangue sem sacrifício,
à jugular ardente da pantera num táxi
desces,
à jungle brilhante das boates,
às florestas de ácido e acrílico
desces,
desces
ao dragão de veias entupidas
no toalete, à girl de gengiva vermelha,
à gente fedendo a dinheiro
no saguão flutuante de negócios,
à boca de fumo e riso, às coxas
que no agora infraeterno te entretêm,
ao ladrilho fosfóreo onde rolam glóbulos
brancos e verdes
à poça verde
sorriso verde
(EXIT no luminoso verde,
que lês:
Au Cabaret-Vert!)
e além
e desces ainda
até àquela palavra afta
(em Desires) fotografada por Banuyoshi Araki
e tornas
ao olho, músculo amatório,
de onde falas
de onde chamas.
Age de Carvalho
no livro Caveira 41
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
Para o meu amante voltando para a esposa
Ela foi cuidadosamente esculpida para você
saída de sua infância
saída dentre seus cem colegas de escola preferidos.
Ela é de fato extraordinária.
Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro
e tão real como uma panela de ferro fundido.
Um artigo de luxo. Um veleiro vermelho-brilhante no cais.
Meu cabelo para fora da janela do carro, esvoaçante como fumaça.
Mariscos fora de época.
ela semeou seu crescimento prático, tropical.
Ela não é uma experiência. Ela é toda harmonia.
Ela cuida para que no bote salva-vidas haja remos e ganchos,
ao meio-dia senta-se à roda do oleiro,
criou três filhos sob a lua,
três querubins desenhados por Michelangelo,
nos terríveis meses na capela.
Se você olhar para cima, as crianças estão lá
como balões delicados que descansam no teto.
depois do jantar, suas cabeças inclinadas,
duas pernas protestando, íntimas, pessoa contra pessoa,
o rosto corado com uma canção e soninho.
Eu dou meu consentimento –
na lama com raiva, para a sua cadela interior
e o enterro das suas feridas –
para enterrar viva a ferida, pequena e vermelha –
para o marinheiro bêbado que aguarda em seu pulso esquerdo,
para o joelho materno, para a meia,
para a cinta-liga, para a chamada –
você vai se esconder nos braços e nos seios
e puxar a fita cor de laranja do cabelo dela
e atender a chamada, a estranha chamada.
Ela é a soma de você mesmo e o seu sonho.
Escale-a como um monumento, passo a passo.
Ela é sólida.
Eu evaporo.
publicado no Suplemento Pernambuco
a partilha
dando lugar a um negócio
ainda sem nome comprei
cigarro em vez de água
com os zlótis que você me deu
hoje de manhã na cozinha
sem me olhar nos olhos eis
a lista das coisas que você me deixa:
aumento das chances de câncer
de pulmão e algum dinheiro
parte dos euros que ainda me deve
bebemos um nescafé escroto
passando os dedos na borda
da xícara sem dizer uma palavra
assombrados com o silêncio (mas
isso é erich kästner) tudo tão diferente
das infinitas calorosas conversas
daquelas do tipo que se muda
o que se pensa só um pouquinho
pra aumentar o teor de encanto
eu queria ter feito amor com você
como você diz ter feito com as outras
para mim só sobrou sua dívida
a partilha das neuroses das solidões
suas tristezas todas te escrevo
do ônibus partida ao meio
procuro você na estrada
porque sei que você vai de carona
até varsóvia quem sabe te vejo
anônima e masturbatória enquanto
você procura alguém com vida interna
morna o suficiente que neutralize
o fervor da sua (meu deus
onde estava eu com a cabeça?)
meu único arrependimento
é não ter te fotografado
enquanto tentávamos pegar
uma carona até o mar báltico
você na beira da estrada
sem camisa sob o sol
parecia deus.
Adelaide Ivanova,
em seu blog
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
Como amar Tchekov
é como amar Anton Tchekov.
É verdade, eu amo Anton Tchekov,
amei-o muito antes de conhecer este homem.
Amo todas as caras de Anton Tchekov que tenho em minha coleção
de fotos que o mostram em diferentes anos de sua vida,
sozinho ou com irmãos e irmãs, com atores,
com Górki,
com Tolstói, com sua esposa, com seus indistinguíveis
e atraentes cães; do estudante sem barba até o homem
com pince-nez, famoso e aflito.
Não tenho nenhuma foto
do homem que amo.
Amo Anton Tchekov por ter viajado sozinho
à prisão da ilha sem ter sido convocado.
por escrever sobre os gélidos, encarnados mares
ao redor da ilha e ao redor das vidas de sua gente
que “pareciam os pesadelos
de um menino pequeno que andou lendo
Lost in the Ocean Wastes
antes de ir dormir e sua coberta cai
e ele se encolhe tremendo
sem conseguir despertar.”
por ter valorizado tanto o feio tinteiro que lhe deu uma pobre costureira
como agradecimento por seu trabalho de médico.
Se há uma vida depois desta
espero ali conhecer Anton Tchekov.
Amar o homem que amo
é como isso, porque está longe,
e porque é escrupuloso e porque seguramente
nada do que diga pode me aborrecer.
Mas também é diferente. Tchekov já tinha morrido
muito antes de eu nascer. E este homem está vivo.
está vivo e não está comigo.
Este homem dividiu comigo uma cama, nossos corpos
roubaram calor um do outro e deram um ao outro
prazer, nossos corpos
se aborreceram com a gente por, depois de os entregarmos um ao outro,
termos deixado que algo que eles não entendem bem os separassem, uma cunha
cruel e metálica que eles nos ouvem chamar
Necessidade.
Parece irreal amar
um homem que vive tão longe, ou que só é real para a mente,
a mente molestando o corpo. Mas que é real,
está vivo e não é numa vida posterior a essa
que o quero ver
mas sim neste aqui e agora, antes que eu fique um mês mais velha,
antes que me surja entre os cabelos outro fio branco.
Se ele me faz pensar em Anton Tchekov não é porque
me lembre o mais minimamente Anton Tchekov, mas porque a dor
da distância entre mim e o homem vivo que conheço e não conheço
me agarra com dor e medo, uma dor e um medo
parecidos com o amor pelos mortos inalcançáveis.
Denise Levertov