viagem de carro
chuva fina na estrada
em turnê
internacional
o automóvel está cheio
de sons
de beijos
de rostos tão conhecidos
acordar numa cama de hotel
com lençol no corpo
e patins nos pés
o vidro do carro pinta manchas
no colo e na testa
selvagens e sem sutiã
cherie
o amor é uma ampulheta
e se não nos detivermos?
que tal nós nos derretermos?
vorazes
todos
delirar é sobrevivência
a melhor cidade
da américa do sul
você tão precisa
você precisa
falando da vida
beijando virilha
nos preenchendo
os grandes espíritos se encontram
todo canalha é magro
nós não temos vergonha.
Aline Miranda
quarta-feira, 30 de julho de 2014
sexta-feira, 25 de julho de 2014
139.
Há muito tempo que não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação.
Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.
Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça de passeante e vejo que, sobre a encosta do Castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave do fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste, e ter a consciência de que, com esta minha tristeza, se cruzou agora - visto com ouvido - o som súbito do eléctrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o sussurro esquecido da cidade viva.
Há muito tempo que não sou eu.
Fernando Pessoa
no Livro do Desassossego
Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.
Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se houvesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça de passeante e vejo que, sobre a encosta do Castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave do fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste, e ter a consciência de que, com esta minha tristeza, se cruzou agora - visto com ouvido - o som súbito do eléctrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o sussurro esquecido da cidade viva.
Há muito tempo que não sou eu.
Fernando Pessoa
no Livro do Desassossego
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sexta-feira, 18 de julho de 2014
Para relatar a história de minha vida, devo recuar alguns anos. Se me fosse possível, deveria retroceder ainda mais à primeira infância, ou mais ainda aos primórdios de minha ascendência.
Os poetas, quando escrevem novelas, costumam proceder como se fossem Deus e pudessem abranger com o olhar toda a história de uma vida humana, compreendendo-a e expondo-a como se o próprio Deus a relatasse, sem nenhum véu, revelando a cada instante sua essência mais íntima. Não posso agir assim, e os próprios poetas não o conseguem. Minha história é, no entanto, para mim, mais importante do que a de qualquer outro autor, pois é a minha própria história, e a história de um homem é não a de um personagem inventado, possível ou inexistente em qualquer outra forma, mas a de um homem real, único e vivo. Hoje sabe-se cada vez menos o que isso significa, o que seja um homem realmente vivo, e se entregam à morte sob o fogo da metralha a milhares de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da Natureza. Se não passássemos de indivíduos isolados, se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias. Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. Assim, a história de cada homem é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo maravilhoso e digno de toda a atenção. Em cada um dos seres humanos o espírito adquiriu forma, em cada um deles a criatura padece, em cada qual é crucificado um Redentor.
Poucos são hoje os que sabem o que seja um homem. Muitos o sentem e, por senti-lo, morrem mais aliviados, como eu próprio, se conseguir terminar este relato.
Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim. Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e o sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos.
A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é impulso em direção ao ser. Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um - resultado de uma tentativa ou de um impulso inicial - tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.
Herman Hesse,
na introdução do livro Demian
Os poetas, quando escrevem novelas, costumam proceder como se fossem Deus e pudessem abranger com o olhar toda a história de uma vida humana, compreendendo-a e expondo-a como se o próprio Deus a relatasse, sem nenhum véu, revelando a cada instante sua essência mais íntima. Não posso agir assim, e os próprios poetas não o conseguem. Minha história é, no entanto, para mim, mais importante do que a de qualquer outro autor, pois é a minha própria história, e a história de um homem é não a de um personagem inventado, possível ou inexistente em qualquer outra forma, mas a de um homem real, único e vivo. Hoje sabe-se cada vez menos o que isso significa, o que seja um homem realmente vivo, e se entregam à morte sob o fogo da metralha a milhares de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da Natureza. Se não passássemos de indivíduos isolados, se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias. Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. Assim, a história de cada homem é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo maravilhoso e digno de toda a atenção. Em cada um dos seres humanos o espírito adquiriu forma, em cada um deles a criatura padece, em cada qual é crucificado um Redentor.
Poucos são hoje os que sabem o que seja um homem. Muitos o sentem e, por senti-lo, morrem mais aliviados, como eu próprio, se conseguir terminar este relato.
Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim. Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e o sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos.
A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é impulso em direção ao ser. Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um - resultado de uma tentativa ou de um impulso inicial - tende a seu próprio fim. Assim é que podemos entender-nos uns aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se.
Herman Hesse,
na introdução do livro Demian
terça-feira, 8 de julho de 2014
"No fundo, poderíamos ser como na superfície", pensou Oliveira, "mas teríamos que viver de outra maneira. E o que quer dizer viver de outra maneira? Talvez viver absurdamente para acabar com o absurdo, sair de si mesmo com tal violência que o salto acabasse nos braços de outro. Sim, talvez o amor, mas o otherness dura para nós o que dura uma mulher, e além disso só no que toca a essa mulher. No fundo, não há otherness, apenas o agradável togetherness. É certo que isso já é alguma coisa..." Amor, cerimônia ontologizante, doadora de ser. E por isso lhe ocorria agora aquilo que na verdade lhe deveria ter ocorrido logo no início: sem se possuir a si mesmo, jamais poderia possuir a outridade. E, afinal, quem é que se possuía de verdade? Quem é que tinha a perfeita consciência de si mesmo, da solidão absoluta que significa nem sequer contar com a própria companhia, que significa ter de entrar num cinema ou num bordel, ou em casa de amigos ou numa profissão absorvente ou no matrimônio para estar pelo menos só-entre-os-demais? Assim, paradoxalmente, o cúmulo da solidão conduzia ao cúmulo do gregarismo, à grande solidão das companhias alheias, ao homem só na sala de espelhos e dos ecos. Todavia, pessoas como ele e tantas outras, que se aceitavam a si mesmas (ou que se repeliam, mas conhecendo-se de perto), entravam sempre no pior paradoxo, estar talvez à beira da outridade e não poder alcançá-la. A verdadeira outridade feita de delicados contatos, de maravilhosos ajustes com o mundo, não podia ser cumprida por um só lado: a mão estendida deveria receber outra mão, vinda de fora, vinda do outro.
Julio Cortázar
em O Jogo da Amarelinha, capítulo 22
Julio Cortázar
em O Jogo da Amarelinha, capítulo 22
sábado, 28 de junho de 2014
Ode al día feliz
ESTA vez dejadme
ser feliz,
nada ha pasado a nadie,
no estoy en parte alguna,
sucede solamente
que soy feliz
por los cuatro costados
del corazón, andando,
durmiendo o escribiendo.
Qué voy a hacerle, soy
feliz.
Soy más innumerable
que el pasto
en las praderas,
siento la piel como un árbol rugoso
y el agua abajo,
los pájaros arriba,
el mar como un anillo
en mi cintura,
hecha de pan y piedra la tierra
el aire canta como una guitarra.
ser feliz,
nada ha pasado a nadie,
no estoy en parte alguna,
sucede solamente
que soy feliz
por los cuatro costados
del corazón, andando,
durmiendo o escribiendo.
Qué voy a hacerle, soy
feliz.
Soy más innumerable
que el pasto
en las praderas,
siento la piel como un árbol rugoso
y el agua abajo,
los pájaros arriba,
el mar como un anillo
en mi cintura,
hecha de pan y piedra la tierra
el aire canta como una guitarra.
Tú a mi lado en la arena
eres arena,
tú cantas y eres canto,
el mundo
es hoy mi alma,
canto y arena,
el mundo
es hoy tu boca,
dejadme
en tu boca y en la arena
ser feliz,
ser feliz porque si, porque respiro
y porque tú respiras,
ser feliz porque toco
tu rodilla
y es como si tocara
la piel azul del cielo
y su frescura.
eres arena,
tú cantas y eres canto,
el mundo
es hoy mi alma,
canto y arena,
el mundo
es hoy tu boca,
dejadme
en tu boca y en la arena
ser feliz,
ser feliz porque si, porque respiro
y porque tú respiras,
ser feliz porque toco
tu rodilla
y es como si tocara
la piel azul del cielo
y su frescura.
Hoy dejadme
a mí solo
ser feliz,
con todos o sin todos,
ser feliz
con el pasto
y la arena,
ser feliz
con el aire y la tierra,
ser feliz,
contigo, con tu boca,
ser feliz.
a mí solo
ser feliz,
con todos o sin todos,
ser feliz
con el pasto
y la arena,
ser feliz
con el aire y la tierra,
ser feliz,
contigo, con tu boca,
ser feliz.
Pablo Neruda
sexta-feira, 27 de junho de 2014
ocupação
o ato de escrever
ocupa metade da minha prosa e metade da minha vida.
mando um bilhete pra ele: vê se desocupa a
outra metade.
preocupação
bilhete não respondido: que ameaças
são essas?
desocupação
preciso sair da outra metade para ceder
lugar ao iminente ato de foder.
Ana Cristina César
em antigos e soltos
o ato de escrever
ocupa metade da minha prosa e metade da minha vida.
mando um bilhete pra ele: vê se desocupa a
outra metade.
preocupação
bilhete não respondido: que ameaças
são essas?
desocupação
preciso sair da outra metade para ceder
lugar ao iminente ato de foder.
Ana Cristina César
em antigos e soltos
quinta-feira, 26 de junho de 2014
UMA COCA-COLA COM VOCÊ
UMA COCA-COLA COM VOCÊ
é ainda melhor que uma viagem a Guadalajara, Paraty, Barcelona, São Luís
ou que ficar completamente chapado com a beleza do Stonehenge
em parte porque neste vestido florido você lembra uma Jeanne Hebuterne melhor & mais feliz
em parte porque eu te amo muito, em parte porque você gosta tanto de cerveja forte
em parte por causa dos plátanos siderais que, entre a rua central & a universidade, dançam como loucos, como se pudessem ver-se refletidos em seus olhos
em parte pelo segredo que nos semeia um sorriso quando pertos de pessoas & estátuas
é difícil acreditar, quando estou com você, que existam coisas tão paradas
tão solenes desagradáveis & definitivas quanto estátuas quando bem em frente
no sol a pino de São Paulo ao meio-dia, periferia afora, nós caminhamos pra lá & pra cá
como uma árvore que respira pelas suas castanhas
& a exposição de retratos parece não possuir rosto algum, só tinta
& você acha um barato o fato de que alguém tenha se dado ao trabalho de pintá-los
olho
para você & prefiro seu rosto a todos os retratos do mundo
à exceção, talvez, do Objeto de Hoag que de qualquer modo está no Museu do Constelário Noturno
aonde, ainda bem, vamos todos os dias & espero que possamos ir juntos pelo resto de nossas vidas
& isso de você se mover tão lindamente lê tão bem o anarquismo
assim com em nossa casa quase nunca penso no Nu à contre-jour ou
num ensaio nalgum desenho de Frank Frazetta ou Michelangelo que antes me alumbrava
& o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa
quando eles jamais encontraram a pessoa certa para, avarandado à sombra de uma árvore, enamorar-se de mais um belo suicídio do sol
ou por sinal John Romita Jr. que não riscou a armadura tão bem quanto
o coração dentro da armadura
acho que todos eles perderam uma experiência maravilhosa
& eu não vou desperdiçar
é por isso que estou aqui, contando tudo isso pra você
FRANK O'HARA
Tradução Fabiano Calixto
é ainda melhor que uma viagem a Guadalajara, Paraty, Barcelona, São Luís
ou que ficar completamente chapado com a beleza do Stonehenge
em parte porque neste vestido florido você lembra uma Jeanne Hebuterne melhor & mais feliz
em parte porque eu te amo muito, em parte porque você gosta tanto de cerveja forte
em parte por causa dos plátanos siderais que, entre a rua central & a universidade, dançam como loucos, como se pudessem ver-se refletidos em seus olhos
em parte pelo segredo que nos semeia um sorriso quando pertos de pessoas & estátuas
é difícil acreditar, quando estou com você, que existam coisas tão paradas
tão solenes desagradáveis & definitivas quanto estátuas quando bem em frente
no sol a pino de São Paulo ao meio-dia, periferia afora, nós caminhamos pra lá & pra cá
como uma árvore que respira pelas suas castanhas
& a exposição de retratos parece não possuir rosto algum, só tinta
& você acha um barato o fato de que alguém tenha se dado ao trabalho de pintá-los
olho
para você & prefiro seu rosto a todos os retratos do mundo
à exceção, talvez, do Objeto de Hoag que de qualquer modo está no Museu do Constelário Noturno
aonde, ainda bem, vamos todos os dias & espero que possamos ir juntos pelo resto de nossas vidas
& isso de você se mover tão lindamente lê tão bem o anarquismo
assim com em nossa casa quase nunca penso no Nu à contre-jour ou
num ensaio nalgum desenho de Frank Frazetta ou Michelangelo que antes me alumbrava
& o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa
quando eles jamais encontraram a pessoa certa para, avarandado à sombra de uma árvore, enamorar-se de mais um belo suicídio do sol
ou por sinal John Romita Jr. que não riscou a armadura tão bem quanto
o coração dentro da armadura
acho que todos eles perderam uma experiência maravilhosa
& eu não vou desperdiçar
é por isso que estou aqui, contando tudo isso pra você
FRANK O'HARA
Tradução Fabiano Calixto
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