claro, ela nunca disse que estaria
ou que permaneceria depois
do dobrar das horas. não
minha senhora, no pouco tempo que ficou
constantemente me lembrou de que iria
não estar
ao fim de tudo. o absurdo que me soa
é que, ainda assim, permanecia
como quem não notasse ser
como quem não soubesse estar
presente inteira, mas sobretudo
como se não pudesse ver
que a vida era aquele segundo.
Leandro Durazzo
via Facebook
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
"today my professor told me
every cell in our entire body
is destroyed and replaced
every seven years.
every cell in our entire body
is destroyed and replaced
every seven years.
how comforting it is to know
one day i will have a body
you will have never touched."
one day i will have a body
you will have never touched."
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
"o amor é paciente
o amor é gentil
suporta qualquer coisa
e tudo sabe
o amor nunca acaba
profecia - desapareceu
se as linguagens - mudas
sabedoria - nada
profecia - desapareceu
linguagens - mudas
e apenas fica
fé, esperança e amor
mas o maior desses três
é o amor"
a liberdade é azul
kieslowski
o amor é gentil
suporta qualquer coisa
e tudo sabe
o amor nunca acaba
profecia - desapareceu
se as linguagens - mudas
sabedoria - nada
profecia - desapareceu
linguagens - mudas
e apenas fica
fé, esperança e amor
mas o maior desses três
é o amor"
a liberdade é azul
kieslowski
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
Trecho de Manchas na pele, linguagem
Como todos os processos excessivamente contínuos, é preciso que nos lembremos do envelhecimento de um ponto de vista absolutamente exterior (em frases como "Não tenho idade para", "Naquela época" ou "Quando eu era menino") ou, ao contrário, de um interior imediato, muitas vezes corpóreo - na completa falta de ar após uma corrida, no rompimento estúpido de algum músculo. Mas é então, sob a sentença de um envelhecimento inevitável, que alguma coisa em mim parece querer, e poder, sobrevoar meu corpo, livrar-se dele - um misto de olhar para longe e respiração, um amálgama aflito de palavras, a melodia como porta ou túnel, o instante que cava minha pegada numa paisagem imensa. Mas esta alegria progressiva precisa de alimento constante e o próprio corpo, em sua casca, parece não resistir bem a ela, tornando-se inquieto, ofegante e, aos poucos, cansado e deprimido. Como um balão cujo gás vai escapando, a energia insana de nossa alegria física procura abrigo - nas imagens, nos braços de outra pessoa e, no limite, pois é a isto que sempre recorre, na linguagem. É ali que a tentamos prender, antes que o gás escape de uma vez e sejamos tão-somente os espectadores de nossa própria decrepitude, de nossa fusão indeterminada na matéria.
Chegamos então à beira do velho precipício - o entusiasmo das palavras vagas. É a este antigo último recurso que recorremos sempre - exclamações ou frases compulsivas que não conseguimos deixar de dizer. Talvez seja melhor tratar agora dessa estranha ferramenta, a linguagem, que me põe para fora do corpo - tentar apreendê-la, indeciso entre o mugido daquilo que vai sob a camisa e a fatuidade grandiosa de minhas frases. Sem conseguir escolher se a vida é benção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, órgãos entranhados na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem?
Como uma via intermediária, procuro entrar e permanecer no reino da pergunta - ou de uma explicação que não explica nunca. Assim, suspenso, murmuro um nome confuso a cada ser que chama minha atenção e toco com meu dedo a sua frágil solidez, fingindo que são homogêneos e contínuos. Posso, até mesmo, anotar em meu caderno características do que toco, como: "pinta-se de verde antes de reproduzir", "mostra extrema ansiedade antes do ocaso", ou "destila o breu dos carvalhos ao redor", mas não devo, em hipótese alguma, regredir à cadeia causal interminável, como um cachorro mordendo a cauda. Acabo por me conformar com uma vaga e humilde dispersão dos seres, fechados em seu desinteresse e incomunicabilidade de fundo, e como um modelo mal-ajustado ao modelo permaneço em meu torpor indagativo, deitado na relva, tentando unir pedaços de frases a pedaços de coisas vivas.
Nuno Ramos
no livro Ó
Chegamos então à beira do velho precipício - o entusiasmo das palavras vagas. É a este antigo último recurso que recorremos sempre - exclamações ou frases compulsivas que não conseguimos deixar de dizer. Talvez seja melhor tratar agora dessa estranha ferramenta, a linguagem, que me põe para fora do corpo - tentar apreendê-la, indeciso entre o mugido daquilo que vai sob a camisa e a fatuidade grandiosa de minhas frases. Sem conseguir escolher se a vida é benção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens, cifras, letras de fumaça, rima feita de bosta, imensidão aprisionada numa cerca, besouros dentro do ouvido, fosforescência do organismo, batimento cardíaco comum a vários bichos, órgãos entranhados na matéria inerte, olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem?
Como uma via intermediária, procuro entrar e permanecer no reino da pergunta - ou de uma explicação que não explica nunca. Assim, suspenso, murmuro um nome confuso a cada ser que chama minha atenção e toco com meu dedo a sua frágil solidez, fingindo que são homogêneos e contínuos. Posso, até mesmo, anotar em meu caderno características do que toco, como: "pinta-se de verde antes de reproduzir", "mostra extrema ansiedade antes do ocaso", ou "destila o breu dos carvalhos ao redor", mas não devo, em hipótese alguma, regredir à cadeia causal interminável, como um cachorro mordendo a cauda. Acabo por me conformar com uma vaga e humilde dispersão dos seres, fechados em seu desinteresse e incomunicabilidade de fundo, e como um modelo mal-ajustado ao modelo permaneço em meu torpor indagativo, deitado na relva, tentando unir pedaços de frases a pedaços de coisas vivas.
Nuno Ramos
no livro Ó
sábado, 1 de agosto de 2015
Conheça Miss Metrô
Conheça Miss Metrô
1957
Veja Miss Metrô
1957
rodando no trem da Times Square
pra lá e pra cá
às quatro da manhã
Conheça Miss Metrô
1957
Ela usa buchas de algodão do tamanho de moedas
socadas no nariz moreno achatado
transitando pra lá e pra cá
no trem da Times Square
às quatro da manhã
e circulando
entre os anéis de ferro do paraíso
com braços dourados retalhados
charuto negro em mão morena
Você pode encontrar Miss Metrô
Você pode ver Miss Metrô
1957
trajando trajes tristes
transando trastes transidos
circulando em transe pelo trânsito
com braços morenos fatigados
bituca negra em mão morena
E os carros de ferro
indo e vindo eternamente
rumo à morte e à escuridão
oh Ubangi perdido
Cambaleando entre
as "ogivas sucessivas" do Inferno
em direção à definitiva
escada de incêndio de Danta
Lawrence Ferlinghetti,
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça
1957
Veja Miss Metrô
1957
rodando no trem da Times Square
pra lá e pra cá
às quatro da manhã
Conheça Miss Metrô
1957
Ela usa buchas de algodão do tamanho de moedas
socadas no nariz moreno achatado
transitando pra lá e pra cá
no trem da Times Square
às quatro da manhã
e circulando
entre os anéis de ferro do paraíso
com braços dourados retalhados
charuto negro em mão morena
Você pode encontrar Miss Metrô
Você pode ver Miss Metrô
1957
trajando trajes tristes
transando trastes transidos
circulando em transe pelo trânsito
com braços morenos fatigados
bituca negra em mão morena
E os carros de ferro
indo e vindo eternamente
rumo à morte e à escuridão
oh Ubangi perdido
Cambaleando entre
as "ogivas sucessivas" do Inferno
em direção à definitiva
escada de incêndio de Danta
Lawrence Ferlinghetti,
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça
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Lawrence Ferlinghetti,
Mensagens Orais
Rua Longa
A rua longa
que é a rua do mundo
passa em torno do mundo
cheia de todas as pessoas do mundo
pra não dizer todas as vozes
de todas as pessoas
que já existiram
Quem ama e quem chora
dorminhocos e virgens
homens de venda de spaghetti e homens-sanduíche
oradores e leitores
desossados banqueiros
donas-de-casa criteriosas
cobertas de esnobices de náilon
desertos de publicitários
manadas de secundaristas fogosas
multidões de colegiais
falando pelos cotovelos do mundo
e andando por aí sem parar
se pendurando na primeira janela
para ver o que passa
no mundo lá fora
onde tudo acontece
mais cedo ou mais tarde
se de fato acontece mesmo
E a rua longa
que é a rua mais longa
de todo o mundo
mas não é tão longa
como parece
passa por
todas as cidades e todas as cenas
cada alameda abaixo
cada boulevard para cima
cruza cada cruzamento
com sinais vermelhos e sinais verdes
passa por cidades ao sol
continentes na chuva
Hong Kongs famintas
incultiváveis Tuscaloosas
Oaklands da alma
Dublins da imaginação
E a rua longa
rola na sua ronda
como um enorme trem que chia
ofegando em volta do mundo
com a bagunça dos passageiros
os bebês e as cestas de piquenique
os cachorros e os gatos
e todos se perguntando
quem é que está
na cabine da frente
guiando o trem
se é que lá
tem mesmo alguém
o trem que corre ao redor do mundo
como um mundo que vai ficando redondo
todos ali se perguntando
que será que há
se há qualquer coisa
enquanto alguns se pendurando
espicham o olhar para a frente
tentando dar uma manjada
no maquinista na cabine
que só tem um olho
tentando ver o maquinista
divisar sua face
encontrar seu olho
quando eles passam numa curva
e jamais conseguem
embora de vez em quando pareça
que eles até já estão
para conseguir
E assim a rua vai rolando
vai o trem rebolando
estendendo nas janelas
suas lá dele as demais janelas de todos
os edifícios de
todas as ruas do mundo
deslizando também
na luz do mundo
na noite do mundo
com sinais nas travessias
fachos que estão perdidos mas focam
multidões em carnavais
circos na boca da noite
puteiros e parlamentos
fontes que o pensamento abandona
portas de porão e portas não achadas
figuras indecisas na lâmpada
ídolos que dançam pálidos
na ida continuada do mundo
Mas chegamos agora
à parte mais vazia da rua
à parte da rua
que passa em volta
da parte mais vazia do mundo
E não é aqui
que você vai
mudar de trem
Não é neste lugar
que você faz
alguma coisa
Esta é aquela parte do mundo
onde nada está fazendo
onde ninguém está fazendo
nada
onde em nenhum lugar há
alguém que não seja
apenas você
nem mesmo um espelho
que te faça em dois
nem uma alma
a não ser a sua
talvez
e mesmo assim
não aí
talvez
ou então não sua
talvez
porque você está como se diz
morto
você chegou à sua estação
Queira descer
Lawrence Ferlinghetti,
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça
que é a rua do mundo
passa em torno do mundo
cheia de todas as pessoas do mundo
pra não dizer todas as vozes
de todas as pessoas
que já existiram
Quem ama e quem chora
dorminhocos e virgens
homens de venda de spaghetti e homens-sanduíche
oradores e leitores
desossados banqueiros
donas-de-casa criteriosas
cobertas de esnobices de náilon
desertos de publicitários
manadas de secundaristas fogosas
multidões de colegiais
falando pelos cotovelos do mundo
e andando por aí sem parar
se pendurando na primeira janela
para ver o que passa
no mundo lá fora
onde tudo acontece
mais cedo ou mais tarde
se de fato acontece mesmo
E a rua longa
que é a rua mais longa
de todo o mundo
mas não é tão longa
como parece
passa por
todas as cidades e todas as cenas
cada alameda abaixo
cada boulevard para cima
cruza cada cruzamento
com sinais vermelhos e sinais verdes
passa por cidades ao sol
continentes na chuva
Hong Kongs famintas
incultiváveis Tuscaloosas
Oaklands da alma
Dublins da imaginação
E a rua longa
rola na sua ronda
como um enorme trem que chia
ofegando em volta do mundo
com a bagunça dos passageiros
os bebês e as cestas de piquenique
os cachorros e os gatos
e todos se perguntando
quem é que está
na cabine da frente
guiando o trem
se é que lá
tem mesmo alguém
o trem que corre ao redor do mundo
como um mundo que vai ficando redondo
todos ali se perguntando
que será que há
se há qualquer coisa
enquanto alguns se pendurando
espicham o olhar para a frente
tentando dar uma manjada
no maquinista na cabine
que só tem um olho
tentando ver o maquinista
divisar sua face
encontrar seu olho
quando eles passam numa curva
e jamais conseguem
embora de vez em quando pareça
que eles até já estão
para conseguir
E assim a rua vai rolando
vai o trem rebolando
estendendo nas janelas
suas lá dele as demais janelas de todos
os edifícios de
todas as ruas do mundo
deslizando também
na luz do mundo
na noite do mundo
com sinais nas travessias
fachos que estão perdidos mas focam
multidões em carnavais
circos na boca da noite
puteiros e parlamentos
fontes que o pensamento abandona
portas de porão e portas não achadas
figuras indecisas na lâmpada
ídolos que dançam pálidos
na ida continuada do mundo
Mas chegamos agora
à parte mais vazia da rua
à parte da rua
que passa em volta
da parte mais vazia do mundo
E não é aqui
que você vai
mudar de trem
Não é neste lugar
que você faz
alguma coisa
Esta é aquela parte do mundo
onde nada está fazendo
onde ninguém está fazendo
nada
onde em nenhum lugar há
alguém que não seja
apenas você
nem mesmo um espelho
que te faça em dois
nem uma alma
a não ser a sua
talvez
e mesmo assim
não aí
talvez
ou então não sua
talvez
porque você está como se diz
morto
você chegou à sua estação
Queira descer
Lawrence Ferlinghetti,
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça
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Mensagens Orais
Cristo Abandonou
Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
não há árvores de Natal desenraizadas
e com penduricalhos pendurados pelos galhos
Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
não há árvores de Natal luminescentes
ou árvores de Natal de estanho folheado
ou árvores de Natal de estranhos floreados
ou árvores de Natal rosa plástico
ou árvores de Natal douradas
ou árvores de Natal negras
ou árvores de Natal azul esmalte
com velas elétricas
e trenzinhos elétricos rodando em volta
e parentes elegantes se empanturrando
de sarrabulho.
Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
não há intrépidos vendedores de Bíblias
cobrindo a nação
em cadillacs obesos
nem presépios das lojas Sears
completos com bebê de plástico na manjedoura e tudo
enviados pelo correio
e bebê vem pela entrega rápida
nem Sábios televisivos
entoando cânticos de louvor ao uísque Lord Calvert
Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
nenhum gordo estranho apertando as mãos
metido numa roupa vermelha de flanela
com uma barba branca falsa
fica circulando
como se fosse uma espécie de santo do Pólo Norte
cruzando o deserto até Belém
na Pennsylvania
num trenó
puxado por renas tilintantes de Adirondack
com nomes alemães
transportando sacos cheios de presentes
da Saks da Quinta Avenida
para que todos celebrem Cristo criança
Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
Bing Crosby nenhum recita
canções de Feliz Natal
nem anjos da Radio City
patinam desasados
por um gélido País das Maravilhas
em direção ao Paraíso do jinglebell
diariamente às 8:30
com matinês da Missa do Galo
Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e furtivamente fugiu rumo
ao útero anônimo de Maria outra vez
onde na escuridão da noite
das almas anônimas de nós todos
Ele aguarda novamente
uma inimaginável
e impossível
Reconcepção Imaculada
na mais doida de todas
as Segundas Vindas
Lawrence Ferlinghett,
Mensagens Orais, no livro Um parque de diversões da cabeça
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
não há árvores de Natal desenraizadas
e com penduricalhos pendurados pelos galhos
Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
não há árvores de Natal luminescentes
ou árvores de Natal de estanho folheado
ou árvores de Natal de estranhos floreados
ou árvores de Natal rosa plástico
ou árvores de Natal douradas
ou árvores de Natal negras
ou árvores de Natal azul esmalte
com velas elétricas
e trenzinhos elétricos rodando em volta
e parentes elegantes se empanturrando
de sarrabulho.
Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
não há intrépidos vendedores de Bíblias
cobrindo a nação
em cadillacs obesos
nem presépios das lojas Sears
completos com bebê de plástico na manjedoura e tudo
enviados pelo correio
e bebê vem pela entrega rápida
nem Sábios televisivos
entoando cânticos de louvor ao uísque Lord Calvert
Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
nenhum gordo estranho apertando as mãos
metido numa roupa vermelha de flanela
com uma barba branca falsa
fica circulando
como se fosse uma espécie de santo do Pólo Norte
cruzando o deserto até Belém
na Pennsylvania
num trenó
puxado por renas tilintantes de Adirondack
com nomes alemães
transportando sacos cheios de presentes
da Saks da Quinta Avenida
para que todos celebrem Cristo criança
Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e se mandou para onde
Bing Crosby nenhum recita
canções de Feliz Natal
nem anjos da Radio City
patinam desasados
por um gélido País das Maravilhas
em direção ao Paraíso do jinglebell
diariamente às 8:30
com matinês da Missa do Galo
Cristo abandonou
sua árvore desnuda
este ano
e furtivamente fugiu rumo
ao útero anônimo de Maria outra vez
onde na escuridão da noite
das almas anônimas de nós todos
Ele aguarda novamente
uma inimaginável
e impossível
Reconcepção Imaculada
na mais doida de todas
as Segundas Vindas
Lawrence Ferlinghett,
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