sexta-feira, 20 de abril de 2018

A time past

The old wooden steps to the front door
where I was sitting that fall morning
when you came downstairs, just awake,
and my joy at sight of you (emerging
into golden day —
the dew almost frost)
pulled me to my feet to tell you
how much I loved you:
those wooden steps
are gone now, decayed
replaced with granite,
hard, gray, and handsome.
The old steps live
only in me:
my feet and thighs
remember them, and my hands
still feel their splinters.
Everything else about and around that house
brings memories of others — of marriage
of my son. And the steps do too: I recall
sitting there with my friend and her little son who died,
or was it the second one who lives and thrives?
And sitting there ‘in my life,’ often, alone or with my husband.
Yet that one instant,
your cheerful, unafraid, youthful, ‘I love you too,’
the quiet broken by no bird, no cricket, gold leaves
spinning in silence down without
any breeze to blow them,
is what twines itself
in my head and body across those slabs of wood
that were warm, ancient, and now
wait somewhere to be burnt.

Denise Levertov
As you read, a white bear leisurely
pees, dyeing the snow
saffron
and as you read, many gods
lie among lianas: eyes of obsidian
are watching the generations of leaves,
and as you read
the sea is turning its dark pages,
turning
its dark page

Denise Levertov

LOVE SONG

Your beauty, which I lost sight of once
for a long time, is long,
not symmetrical, and wears
the earth colors that make me see it.
A long beauty, what is that?
A song
that can be sung over and over,
long notes or long bones.
Love is a landscape the long mountains
define but don’t
shut off from the
unseeable distance.
In fall, in fall,
your trees stretch
their long arms in sleeves
of earth-red and
sky-yellow, a little
lop-sided. I take
long walks among them. The grapes
that need frost to ripen them
are amber and grow deep in the
hedge, half-concealed,
the way your beauty grows in long tendrils
half in darkness.
Denise Levertov

domingo, 8 de abril de 2018

Tentativa de ciúme

"Como vai você com a outra?
(...)

Como vai você com a mulher

Comum? Sem nada de divino?
Sem soberana, sem sequer
Um trono (você foi o assassino),

Como vai, meu bem? Tudo a gosto?

E o dia-a-dia — sempre igual?
Como você se arranja com o imposto
Da banalidade imortal?

"Mil sobressaltos, incertezas —

Basta! Vou arrumar um teto!"
Como vai, com quem quer que seja —
O eleito pelo meu afeto?

A comida é melhor, mais familiar?

Diga a verdade. Como vai
Você com a imitação vulgar —
Você, que subiu ao Sinai?

Como é viver com uma estranha?

Você a ama? Não disfarce.
O chicote de Zeus da vergonha
Nenhuma vez lhe zurze a face?

E a saúde, vai bem? Que tal

A vida — uma canção? A ferida
Da consciência imortal
Como a suporta, meu querido?

Como vai você com o adereço

De feira? A taxa é muito cara?
Como é aspirar o pó do gesso
Depois do mármor de Carrara?

(Deus talhado em barro, termina

Em pedaços!) Como é o convívio
Com a milionésima da fila
Pra quem já conheceu Lilit?

As novidades de feira

Se acabaram? Farto de portentos,
Como é a vida corriqueira
Com a mulher terrena, sem sexto

Sentido? Vamos, tudo cor

De rosa? Ou não? Aí, nesse oco
Sem fundo, amor, como vai? Pior
Ou igual a mim com outro?"

Marina Tsvetaieva

tradução de Augusto de Campos

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Não me sinto seguro
Em parte alguma.
A aventura não termina.
Teus olhos brilham em todos os lugares
Não me sinto seguro
Nas palavras
No dinheiro
Nos espelhos.
A aventura nunca termina
e os teus olhos me procuram.


Roberto Bolaño,

em A universidade desconhecida
Tradução de Laura Erber
Agora o teu corpo é sacudido por 
pesadelos. Você já não é
o mesmo: que amou,
que se arriscou.
Você já não é o mesmo, embora amanhã talvez
tudo se desvaneça
como um sonho ruim e você comece
de novo. Talvez
amanhã comece de novo.
E o suor, e o frio,
os detetives erráticos,
sejam como um sonho.
Não desanime.
Agora você treme,
mas talvez
amanhã comece de novo.


Roberto Bolaño,

em A universidade desconhecida
Tradução de Laura Erber

A Francesa


Uma mulher inteligente
Uma mulher formosa
Conhecia todas as variantes, todas as possibilidades
Leitora dos aforismos de Duchamp e dos relatos de Defoe
Em geral com um autocontrole invejável
Salvo quando ficava deprimida e enchia a cara
Algo que podia durar dois ou três dias
Uma sucessão de bordéis e valiums
Que fariam de você um frangote
Então costumava contar histórias que lhe aconteceram
Entre os 15 e os 18
Um filme de sexo e terror
Corpos despidos e negócios no limite da lei
Uma atriz vocacional e ao mesmo tempo uma menina com
     estranhos traços de avareza
Conheci ela quando acabara de completar 25
Numa época tranqüila
Acho que tinha medo da velhice e da morte
A velhice para ela era os trinta anos
A Guerra dos Trinta Anos
Os trinta anos de Cristo quando começou a pregar
Uma idade como qualquer outra, disse-lhe enquanto jantávamos
à luz de velas
Contemplando o correr do rio mais literário do planeta
Mas para nós o prestígio estava em outra parte
Para os lados possuídos pela lentidão, nos gestos
     deliciosamente lentos do desequilíbrio nervoso
Nas camas escuras
Na multiplicidade geométrica das vitrines vazias
Na cova da realidade
Nosso luxo
Nosso absoluto
Nosso Voltaire
Nossa filosofia de cama e banho
Como dizia, uma moça inteligente
Com essa rara virtude vidente
(Rara para nós latino-americanos)
Que é tão comum em sua pátria
Onde até os assassinos tem uma caderneta de poupança
 e ela não deixaria por menos
Uma caderneta de poupança e uma foto de Tristán Cabral,
A nostalgia do não vivido
Enquanto aquele prestigioso rio arrastava o sol moribundo
E sobre suas bochechas corriam lágrimas aparentemente gratuitas
Não quero morrer sussurrava enquanto gozava
Na perspicaz escuridão do quarto
E eu não sabia o que dizer
Na verdade não sabia o que dizer
A não ser acariciá-la e segurá-la enquanto se movia
Pra cima e pra baixo com a vida
Pra cima e pra baixo como as poetas da França
Inocentes e castigadas
Até que voltava ao planeta Terra
E de seus lábios brotavam
Paisagens da adolescência que de improviso enchiam nosso
    quarto
Com duplicatas que choravam nas escadas rolantes do metrô
Com duplicatas que faziam amor com dois tipos por vez
    enquanto lá fora a chuva caia
Sobre os sacos de lixo e sobre as pistolas abandonadas
    nos sacos de lixo
A chuva que tudo lava
Menos a memória e a razão
Vestidos, jaquetas de couro, botas italianas, lingerie para
    enlouquecê-lo
Para enlouquecê-la
Apareciam e desapareciam em nosso quarto fosforescente e
     pulsátil
E rastros rápidos de outras aventuras menos íntimas
Fulguravam em seus olhos feridos como vaga-lumes
Um amor que não ia durar muito
Mas que até a sobremesa seria inesquecível
Disse isso
Debruçada na janela
Seu rosto suspenso no tempo
Seus lábios: os lábios de uma estátua
Um amor inesquecível
Sob a chuva
Sob esse céu eriçado de antenas onde conviviam
Os artesonados do Século XVII
Com as cagadas de pombo do Século XX
E no meio
Toda a inextinguível capacidade de provocar dor
Invicta através dos anos
Invicta através dos amores
Inesquecíveis
Disse isso, sim
Um amor inesquecível
E breve
Como um furacão?
Não, um amor breve como um suspiro de uma cabeça guilhotinada
A cabeça de um rei ou de um conde bretão
Breve como a beleza
A beleza absoluta
A que contém toda a grandeza e a miséria do mundo
E que só é visível para aqueles que amam

A Francesa,
de Roberto Bolaño