quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Versos para ser caluniado

                                             Para Charles Vignier

À noite debrucei-me sobre teu sono.
Casto teu corpo todo no leito humilde
Dormia; e vi, como quem se esforça e lê,
Ai, eu vi que sob o sol é tudo vão!

Viver, ah que delicada maravilha:
Nosso mecanismo é uma flor maleável!
Ai, pensamento que vais dar na loucura!
Dorme, vai! Eu, de temor por ti, desperto.

Ah, miséria de te amar, meu pobre amor
Que respiras tal como um dia se expira!
Ah, olhar fechado como a morte fará!

Ah, boca que ris em sonhos contra a minha,
À espera do outro riso, mais violento!
Anda, acorda. Me diz: a alma é imortal?

Paul Verlaine


                                       

Bilhete para o Bivar

hoje é o dia que os
             anjos descem nas
             catacumbas de cimento
sem o aviso das
             máquinas de empacotar
sem saltar sobre
             caramanchões de poluição
disseminando comportamento
             de Lacaio
é o momento do
             último homem
o que dura mais
             tempo
é o tempo do crime
             & sua prova
a caveira que ri
             na noite vermelha
a explosão demográfica
& a fome a galope
é o Sol mudo a
Lua paralítica
Drácula janta na
             Esquina
E para que ser poeta
             em tempos de penúria? Exclama
             Hölderlin adoidado
assassinos travestidos em folhagens
hordas de psicopatas
             atirados nas praças
enquanto os últimos
             poetas
perambulam na noite
             acolchoada

Roberto PivaR
Sou o poeta na cidade
Não da cidade
gosto das extensões azuladas das
            últimas montanhas
contemplar nas estradas de topázio
o anzol das constelações

Roberto Piva

todo poeta é marginal, desde que foi expulso da república de platão.

O JOGO GRATUITO DA POESIA

"Há campos para todos. Caminhos não marcados a ninguém..."

(Hölderlin)

O fazer poético passa pelo corpo e pela cama. "A poesia se faz na cama como o amor...", isto para começar a conversa. A palavra registrada em livro é a mera extensão (sublimada) do que sobrou da Orgia. Todos nós somos labaredas provocadas pelo curto-circuito do Desejo. O resto é balacobaco, isto é, literatura. Dante é pra ser relido numa sauna, rodeado de adolescentes. Não num escritório-abrigo-antiatômico. O vampirismo descobriu o desbunde, o marxismo e a linguagem caricata. Henri Michaux já deu o recado: Conhecimento através dos abismos. Inferno, Purgatório e Paraíso são uma coisa só. Mastigue cogumelos e Veja. Nenhuma regra: Ver com os olhos livres. Assim o curumim aprendeu o gosto de todos os espíritos. O assassinato também pode ser a ordem do dia. A blasfêmia e o roubo. Veja o episódio Vanni Fucci no Inferno de Dante. Gíria da pesada de malandro medieval. Mimetismo. Para uma estética da crueldade. Como diz Edoardo Sanguinetti, "O Surrealismo é o fantasma que, com toda a justiça, persegue as vanguardas e lhes nega um sono tranquilo". Com a costela do Kapitalismo foi criada a Panacéia Socialista. O Forró Nuclear é a medida da Riqueza das Nações. As soluções em Poesia são individuais e não coletivas. Eu estou com Gilberto Vasconcelos: depois que joguei a obra completa de Marx pela janela, comecei a compreender o Brasil. Fora isto o seguinte: Poesia é uma força de conhecimento que vê através de objetos opacos, como uma viagem de LSD e estados mediúnicos de levitação. Xamanismo, linguagem da Sibila de Cumas e cantos de caça de povos "primitivos", poesia é uma atividade lúdica em que está empenhada sua vida, sua morte, a felicidade e principalmente o jogo. O jogo gratuito de todas as coisas. Por acaso, eis a origem de todas as coisas, diz Nietzsche. Não devemos excluir autoritariamente, como censor barato, nem os que se dizem marginais e não são e nem os que pensam que são marginais e são escrituários. Os Hitlers e Castros da vida já fizeram isso com muito mais eficiência. A Poesia é a mais fascinante orgia ao alcance do homem. E como diz Hegel, "A Orgia báquica da história será vivida por cada um de seus membros".

Roberto Piva
tudo que toco
com ternura, ó céus
pica como espinhos
kobayashi issa

sábado, 24 de janeiro de 2015

Margem

Vou andando para a beira desse porto,
entre cheiros de cigarra e de sardinha
e um desejo líquido de partir.
Meu olhar desliza no horizonte, querendo saber
a que distância um nome deixa de doer.
Seu nome, marcado em minha boca
como a polpa de uma pêra .
O navio enorme avisa que vai embora.
Escrevo a palavra salto,
e paro no sal, e não chego ao alto.
A noite está boiando
num óleo grosso de silêncio e luz.
Molho os pés, penso em seu nome: gozo
de um poço tapado. Insônia de musgos
na beira das águas redondas.
Me vejo na ponta do cais,
cacos de luz
abrindo a cara do mar.
Destroços de palavras, pedaços de seu nome,
sílabas que batem contra os cascos.
Estou parado na beira de um porto,
azul e morte no oco do ar.
Antonio Carlos Secchin

domingo, 11 de janeiro de 2015

Histeria Coletiva

em 1518, em estrasburgo
centenas de pessoas dançaram
sem música sem motivo
até cansar até morrer
450 anos depois,
na região de tanganyika, tanzânia
cidades inteiras riram
um ano e meio
a mesma piada
na índia de 2006,
uma cidade bebeu
do rio mais poluído
súbito doce súbito potável
até o dia seguinte
sujo de novo
nenhum caso, porém
espanta mais que aquele
milhares de anos atrás
o casal imortal que jurou
ver na árvore a cobra
na cobra a fruta na fruta
a mordida o pecado a voz
"vocês foderam tudo"
desde então, acreditam povoar
o mundo, acreditam o mundo
desde então, sentados no jardim
maçã apodrecida aos pés
vivem a ilusão de ser 7
bilhões
dançar sem motivo
rir por anos a mesma piada
beber do rio podre
podre podre podre
meu deus, que rio imundo
feito fosse potável
feito fosse doce
Thiago Gallego

I.

eu quando corto relações
corto relações.
não tem essa de
briga de torcida
todos os
sábados.
é a extinção do estádio.
vejo as forças
que atuam, a tesoura,
o papel,
a vontade de cortar.
tudo é provocação?
então embrulha
tua taquicardia
num sorvete de amêndoas,
reza que derreta.
quando lembro do
corte revivo a
ferida.
melhor não.
o corte é definitivo,
a dor retorna em forma
de milão madri
ou liverpool
quando convocada.
ricardo
lembra do teu passado
só se te dá prazer.

Angélica Freitas
no livro Um útero é do tamanho de um punho

3 poemas com o auxílio do Google

a mulher vai

a mulher vai ao cinema
a mulher vai apronta
a mulher vai ovular
a mulher vai sentir prazer
a mulher vai implorar por mais
a mulher vai ficar louca por você
a mulher vai dormir
a mulher vai ao médico e se queixa
a mulher vai notando o crescimento do seu ventre
a mulher vai passar nove meses com uma criança na barriga
a mulher vai realizar o primeiro ultrassom
a mulher vai para a sala de cirurgia e recebe a anestesia
a mulher vai se casar e ter filhos cuidar do marido e das crianças
a mulher vai a um curandeiro com um grave problema de hemorroidas
a mulher vai se sentindo abandonada
a mulher vai gastando seus folículos primários
a mulher vai se arrepender até a última lágrima
a mulher vai ao canil disposta a comprar um cachorro
a mulher vai para o fundo da camioneta e senta-se choramingando
a mulher vai colocar ordem na casa
a mulher vai ao supermercado comprar o que é necessário
a mulher vai para dentro de casa para preparar a mesa
a mulher vai desistir de tentar mudar um homem
a mulher vai mais cedo para a agência
a mulher vai pro trabalho e deixa o homem na cozinha
a mulher vai embora e deixa uma penca de filhos
a mulher vai no fim sair com outro
a mulher vai ganhar um lugar ao sol
a mulher vai poder dirigir no afeganistão

a mulher pensa

a mulher pensa com o coração
a mulher pensa de outra maneira
a mulher pensa em nada ou em algo muito semelhante
a mulher pensa será em compras talvez
a mulher pensa por metáforas
a mulher pensa sobre sexo
a mulher pensa mais em sexo
a mulher pensa: se fizer isso com ele, vai achar que faço com todos
a mulher pensa muito antes de fazer besteira
a mulher pensa em engravidar
a mulher pensa que pode se dedicar integralmente à carreira
a mulher pensa nisto, antes de engravidar
a mulher pensa imediatamente que pode estar grávida
a mulher pensa mais rápido, porém o homem não acredita
a mulher pensa que sabe sobre homens
a mulher pensa que deve ser uma "supermãe" perfeita
a mulher pensa primeiro nos outros
a mulher pensa em roupas, crianças, viagens, passeios
a mulher pensa não só na roupa, mas no cabelo, na maquiagem
a mulher pensa no que poderia ter acontecido
a mulher pensa que a culpa foi dela
a mulher pensa em tudo isso
a mulher pensa emocionalmente


a mulher quer

a mulher quer ser amada
a mulher quer um cara rico
a mulher quer conquistar um homem
a mulher quer um homem
a mulher quer sexo
a mulher quer tanto sexo quanto o homem
a mulher quer que a preparação para o sexo aconteça lentamente
a mulher quer ser possuída
a mulher quer um macho que a lidere
a mulher quer casar
a mulher quer que o marido seja seu companheiro
a mulher quer um cavalheiro que cuide dela
a mulher quer amar os filhos, o homem e o lar
a mulher quer conversar pra discutir a relação
a mulher quer conversa e o botafogo quer ganhar do flamengo
a mulher quer apenas que você escute
a mulher quer algo mais do que isso, quer amor, carinho
a mulher quer segurança
a mulher quer mexer no seu e-mail
a mulher quer ter estabilidade
a mulher quer nextel
a mulher quer ter um cartão de crédito
a mulher quer tudo
a mulher quer ser valorizada e respeitada
a mulher quer se separar
a mulher quer ganhar, decidir e consumir mais
a mulher quer se suicidar

Angélica Freitas
no livro Um útero é do tamanho de um punho
neste rosto em que envelheço
o riso da infância arde e canta.
eis o poema e seu arremesso
mar bramindo nas grades da garganta.

tal o velho a enforcar a criança
o breu põe a ferros a manhã.
verso a verso a poesia não avança
açúcar gago na treva da maçã.

neste corpo em que envelheço
poesia murcha na prosa do verso.
eterno repetir-se nesse espesso
mar de luz, reverso perverso.

Afonso Henriques Neto

metonímia

alguém quer saber o que é metonímia
abre uma página da wikipédia
depara com um trecho de borges
em que a proa representa o navio

a parte pelo todo se chama sinédoque

a parte pelo todo em minha vida
este pedaço de tapeçaria
é representativo? não é representativo?

eu não queria saber o que era
metonímia, entrei na página errada
eu queria saber como se chegava
perguntei a um guarda

não queria fazer uma leitura
equivocada
mas todas as leituras de poesia
são equivocadas

queria escrever um poema
bem contemporâneo
sem ter que trocar fluidos
com o contemporâneo

como roland barthes na cama
só os classicos

Angélica Freitas
no livro Um útero é do tamanho de um punho

discurso

nada existe, celebremos
a alegria.
o nascer e o morrer
não nos acontece.
só para os outros
somos espetáculo.
há vento em excesso
pelos buracos da linguagem.
um jardim muito espesso
labirinto de ideias
flocos de imagens sobre natais de fumaça.
nada existe, celebremos
aventura.
tudo se instala
o sentido esvaziou-se do oceano
praias da totalidade.
o que não existe
celebra a concretude.
é grave a pedra
a pele desgarrada
o esqueleto do silêncio.
lábios se tocam em alegria
beijo seco
jardim de séculos.
quase nenhuma fala
ninguém
mas os caminhos
recordemos:
infância veloz
olfato de espantos
estátua ardente arfando
no sonho.
apenas não há
ninguém
mas os espaços
(apenas o já nascido
previamente ido).
infinito buraco sem tempo
celebração.

Afonso Henriques Neto
no livro Abismo com Violinos

ainda uma vez

não há primavera. melhor: essas flores
são quase aviões (cinema, guerra mundial).
ovos de cimento sangrando sobre memórias.

não há sinais sólidos na paisagem.
antes: nuvem lacrada espessa
ao redor da sordidez, carnificina.

discurso tão antigo, todos os cenários
são antiquíssimas linguagens nas ossadas
de luz das galáxias. nenhum sentido.

vejam bem: não há caminhos, reflexos,
a dose diária de absurdo já se consumiu,
estamos tão nus que não somos nós.

não há morte. sim: o que morreu
foram eixos fixos, auroras sob medida,
primaveras cheirando a flor e bosta de cavalo.

ainda uma vez nowhere, nadie ensaia
o vôo. línguas pingam. ponto. vírgula,
o queimar-se do fogo ultrapassou o fim.

Afonso Henriques Neto
no livro Abismo com Violinos